A Farsa dos Candidatos Autárquicos:
Ignorância à Solta
É difícil encontrar espetáculo mais deprimente do que
o desfile anual de candidatos autárquicos que, de peito feito e sorriso
ensaiado, se apresentam ao eleitorado como
“a esperança da terra”. O problema é que muitos não sabem sequer o que é,
de facto, uma Câmara Municipal. Confundem-na com um palco de vaidades, um
trampolim para carreiras falhadas, ou pior: uma montra de promessas ocas que
nem eles próprios entendem.
Há espetáculos cómicos, há farsas trágicas e
depois há as eleições autárquicas. É nesse palco que surgem, ano após ano,
personagens que se autoproclamam
“candidatos” sem a mais pálida noção do que é uma Câmara Municipal. Para
muitos, é uma espécie de Casa do Povo com ar condicionado, um palanque para
discursos de feira e, claro, um cofre mágico onde cabe tudo: desde rotundas
iluminadas até promessas delirantes de
“trazer o mar para junto da serra”.
Assistimos, incrédulos, a debates onde aspirantes a
presidentes tropeçam em conceitos básicos de gestão autárquica, onde não
distinguem competências municipais de responsabilidades do Governo Central,
onde repetem chavões como papagaios sem nunca lhes dar substância. O resultado?
Uma imagem lastimosa, que arrasta na lama não só os próprios candidatos, mas
também os partidos que os empurram para a arena política sem o mínimo de
preparação.
É uma vergonha individual e coletiva. Vergonha de quem
aceita candidatar-se sem saber ao que vai. Vergonha de quem, nos partidos,
prefere encher listas com corpos disponíveis em vez de cabeças pensantes.
Vergonha, finalmente, de um sistema que normaliza a mediocridade, enquanto o
eleitorado é tratado como massa acrítica que “há-de votar em alguém”.
O retrato é grotesco: candidatos de peito
inchado e cabeça vazia, partidos que os lançam como se fossem sardinhas
atiradas para a brasa. Uns porque não tinham ninguém melhor, outros porque não
querem ninguém mais inteligente (vai que lhes faz sombra). O resultado é o
mesmo: listas recheadas de ignorância e mediocridade, embrulhadas em papel de
celofane partidário.
E não pensemos que isto é exclusivo dos pequenos
partidos, que muitas vezes funcionam como clubes de bairro com tiques de
grandeza. Não: a indigência intelectual, a incompetência gritante e a
desfaçatez descarada estão igualmente presentes nas grandes máquinas
partidárias, que se preocupam mais com quotas internas do que com qualidade de
candidatos.
A política local, que devia ser o espaço mais próximo
da cidadania, da resolução prática de problemas e da gestão séria de recursos
públicos, transforma-se assim numa tragicomédia onde os protagonistas entram em
cena nus de preparação, mas vestidos de arrogância. E os eleitores? Esses são,
invariavelmente, os figurantes involuntários desta encenação deprimente.
Enquanto aceitarmos esta palhaçada, continuaremos a
ter Câmaras Municipais transformadas em laboratórios de incompetência, partidos
desacreditados e uma democracia local a definhar.
A pergunta, corrosiva mas inevitável, fica no
ar: até quando vamos permitir que os cargos públicos sejam ocupados por
aprendizes de nada, que usam a Câmara Municipal como se fosse o recreio de uma
escola mal frequentada?
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