quinta-feira, 21 de agosto de 2025

 

O Turismo que Portugal precisa

              Portugal precisa de turismo, sim — mas não de turismo “rasca”

Nos últimos anos, Portugal tem assistido a uma explosão turística sem precedentes. De Lisboa ao Porto, passando pelo Algarve e até pequenas aldeias, os turistas multiplicam-se, impulsionados por voos low-cost, promoções agressivas e uma cultura de “descoberta” low-budget. Mas é tempo de parar para pensar: que tipo de turismo estamos realmente a atrair — e que país estamos a construir com ele?

O turismo de massas, promovido pelas companhias low-cost e pela proliferação descontrolada de alojamentos locais, transformou zonas históricas em autênticos parques temáticos. É o turismo da mochila, do pão de forma com atum, da lata de salchichas e da garrafa de sumo de supermercado. Não há nada de errado em viajar com pouco dinheiro — o problema está na forma como este modelo turístico consome o espaço urbano, encarece a habitação para os locais, gera lixo e ruído, e deixa uma pegada económica muito inferior ao que se pensa.

Portugal não precisa deste turismo "rasca", que contribui mais para a degradação do território do que para a sua valorização. Não precisamos de grupos que entopem as ruas de Alfama com colunas bluetooth, ou que usam o Airbnb para ocupar prédios inteiros, expulsando famílias portuguesas. Este modelo é insustentável — social, ambiental e até economicamente.

O que Portugal necessita é de um turismo qualificado, de valor acrescentado. Visitantes que procuram cultura, gastronomia, património e experiências autênticas — e que estão dispostos a pagar por isso. Precisamos de um turismo com dinheiro, sim, mas mais do que isso: um turismo com respeito.

O país tem tudo para atrair este tipo de viajante — segurança, clima, beleza natural, história e hospitalidade. Mas para isso, é preciso planeamento, regulação e coragem política.

Devemos incentivar o investimento em hotéis de qualidade, promover roteiros de enoturismo, ecoturismo e turismo cultural. Valorizar o que temos de único, em vez de vender tudo ao desbarato. Apostar na formação dos profissionais do setor, na preservação do património e em políticas que protejam as comunidades locais.

Portugal não pode ser o destino dos que apenas procuram uma cama barata para dormir, e uma cidade barata onde tudo se consome por metade do preço. O nosso valor — enquanto país, enquanto cultura, enquanto destino — é demasiado grande para ser trocado por umas moedas.

 

 

 

Imigração em Portugal: quando não há criação de valor económico

 

"Ser imigrante é saber entrar na casa do outro sem alterar a cena, e acolher o imigrante é receber o parente que veio de longe."

Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um crescimento significativo da imigração. De Lisboa ao Porto, de Setúbal ao Algarve, a diversidade cultural tornou-se parte do quotidiano. Contudo, importa refletir sobre uma questão sensível e, muitas vezes, evitada no debate público: o impacto daqueles que, por diversas razões, não geram valor direto para a economia nacional.

É essencial começar por reconhecer que muitos imigrantes desempenham papéis fundamentais em setores-chave como a agricultura, a construção civil, a hotelaria e os cuidados a idosos. Sem eles, partes significativas da nossa economia estariam em sérias dificuldades. No entanto, há uma realidade que não pode ser ignorada: existem também fluxos migratórios que resultam numa pressão excessiva sobre os serviços públicos, sem contrapartida em produtividade ou contribuição fiscal.

Alguns imigrantes chegam a Portugal sem qualificações, sem domínio da língua, e acabam por viver de apoios sociais durante longos períodos. Em certos casos, há redes de imigração ilegal e exploração que colocam pessoas em situação de vulnerabilidade, mas também há quem se instale sem qualquer intenção de integração ou esforço para contribuir. Numa economia frágil como a portuguesa, com serviços públicos frequentemente sobrecarregados e salários baixos, este cenário levanta questões legítimas.

Além disso, a presença de imigrantes em situação irregular ou sem ocupação útil tende a aumentar o trabalho informal, pressionando o mercado laboral para baixo e criando desigualdades. Isto pode gerar ressentimento nas comunidades locais e alimentar discursos populistas e xenófobos — que devem ser combatidos, mas cuja origem não pode ser ignorada.

Claro está, que a responsabilidade não deve recair apenas sobre os indivíduos, mas sim sobre o Estado e as suas políticas migratórias. Portugal precisa de um sistema mais rigoroso na triagem de entradas, no incentivo à integração, no ensino da língua, e na valorização das competências. Imigrar não deve ser apenas um direito, mas também um compromisso mútuo: quem chega deve estar disposto a contribuir e a integrar-se naquilo que é a nossa cultura, em tudo o que este conceito encerra; quem acolhe deve garantir condições para que isso seja possível.

Defender uma imigração responsável e com critérios claros não é xenofobia, é realismo. A solidariedade não exclui a racionalidade económica. E o futuro de Portugal — envelhecido, com défice de mão-de-obra — depende de sabermos encontrar esse equilíbrio entre acolhimento e exigência.

 

 

ENDIVIDAMENTO – a Espada de Démocles

Uma dívida é um lembrete de que, às vezes, as escolhas financeiras que parecem boas no momento, podem ter consequências negativas a longo prazo.”

 

O Endividamento na economia portuguesa, é um flagelo a quem ninguém escapa. Todos estão endividados |!

Desde logo o Estado. Aqui há a distinguir Dívida Pública à corresponde às responsabilidades financeiras do sector das administrações públicas e Dívida Externa àmede, para um determinado momento do tempo, o endividamento dos residentes num país em relação aos residentes no resto do mundo.

Depois, a Dívida das Empresas -> que corresponde á proporção dos recursos das empresas, derivados do capital de terceiros, ou seja, a quantidade dos recursos que é oriunda de empréstimos bancários, financiamento por meio de títulos de dívida ou qualquer outro tipo de empréstimo que as empresas tenham obtido de terceiros, em vez de usar seu próprio capital e por fim a Dívida das Famílias à o endividamento dos particulares, está normalmente associado aos compromissos de crédito, nomeadamente crédito ao consumo (para aquisição de bens e serviços) e crédito à habitação, este último, a compaginar-se como a principal fonte de endividamento das famílias portuguesas.

Relativamente á Divida do Estado, nos últimos dois anos, estamos a percorrer um caminho positivo, conseguindo diminuir o seu peso face á riqueza gerada internamente (PIB), tendo até recentemente visto aumentar o “rating” da divida soberana por parte da DBRS e da Standard & Poors (para nível A), indicando que os mercados estão a acreditar nas politicas económicas levadas a cabo pelo Governo.

No que concerne á Dívida das Empresas, podemos distinguir aqui as Microentidades e as PME’s, que têm um comportamento muito diferente das Grandes Empresas.

Os empresários portugueses não foram “habituados” a capitalizarem as suas empresas. Até há bem pouco tempo, numa Europa a 27, Portugal só tinha a Roménia atrás de si, no que diz respeito á capitalização das Microentidades e PME’s, o que demonstra uma míope visão estratégica de negócio, preferindo esbanjar capital para fins não empresariais. Esta situação faz todo o sentido, quando sabemos que muitas destas empresas que fazem mais de 90% do tecido empresarial português, são geridas de forma patriarcal e com pouco rigor na gestão global da empresa, tendo o foco no curto prazo (muitas vezes a navegar á vista), quando se deveriam deter no médio/longos prazos, assegurando o futuro das empresas.

Por fim, o Endividamento das Famílias, que se mal calculado gera focos de grande preocupação, não só para as entidades financeiras que suportam esse endividamento e que poderão ter que recorrer á constituição de provisões para cobrir o riscos dos incumprimentos, mas sobretudo para as Famílias, gerando por vezes grandes situações de ruptura familiar, que pode levar á destruturação desse mesmo núcleo, para já não falar na permanente ansiedade que gera a quem quer cumprir e não sabe como.

E para aqui chegar, temos 4 situações distintas.

Desde logo os 3 D à Doença, Divórcio e Desemprego. Qualquer Família que se encontre numa destas situações, coloca logo em perigo o compromisso assumido com a entidade credora, levando a uma situação de incumprimento, que será tão disperso no tempo, enquanto o problema que o motivou não tiver encontrado solução.

Mas a maior parte do incumprimento das Famílias, não está nos 3 D, mas sim nas contas mal feitas ou puramente nunca feitas.

Há muitos anos que dedico parte dos meus estudos ao Endividamento das Famílias, e conclui com amostras significativas de populações endividadas, que cerca de 70% dos incumprimentos erradicam efectivamente nesta quarta hipótese – contas que não são feitas. Possuem “fé” que irão conseguir pagar mensalmente o capital mutuado bem como os respectivas juros, mas depois (e muitas vezes passados só 2 ou 3 meses) acabam por incumprir.

Para estas situações existem duas alavancas impulsionadoras – a fraca literacia e disciplina financeira de muitos cidadãos; e por outro lado, a facilidade, com que os financiadores colocam o dinheiro á sua disposição, particularmente as SFAC’s, que não tendo balcões, apostam as “suas fichas” na divulgação on-line ou via meios de comunicação social, para divulgar as suas propostas de crédito.

Obviamente, que sendo o risco maior a taxa de juro tem que acompanhar no mesmo sentido, mas muitas vezes tal política de aceitação de riscos de crédito acaba por não compensar.

Mas neste caso poder-se-á colocar a seguinte questão: se as SFAC’s sabem que os clientes que a elas recorrem são básicamente de um maior risco (estão dispostos a pagar um serviço da dívida maior do que o Banco onde possuem conta ou ainda, o Banco onde são clientes lhes “fechou a torneira” do crédito), por que razão as SFAC’s querem correr este risco? Certamente porque se acharão recompensadas!

A palavra às SFAC’s.

E é neste mar de Endividamento que Portugal mergulhou.

Numa conjuntura internacional de grande dificuldade e extrema instabilidade em que vivemos, não será necessário um terramoto, mas somente necessário um pequeno sopro, um ligeiro abanão ou algum aguaceiro mais prolongado, para tudo isto ruir, e ai estará a Espada de Démocles, para que de forma impiedosa se irá fazer brandir.

 

 

 

 


BENS TRANSACCIONÁVEIS – A ALAVANCA DO CRESCIMENTO DA ECONOMIA   

PORTUGUESA

 

Nas últimas décadas, a economia portuguesa tem enfrentado múltiplos desafios estruturais, desde a baixa produtividade à dependência do consumo interno e do endividamento. Nesse contexto, a aposta nos bens transacionáveis — ou seja, bens e serviços que podem ser comercializados no mercado internacional — revelou-se uma alavanca essencial para um crescimento económico mais sustentável, competitivo e resiliente.

Os bens transacionáveis têm um papel central no reequilíbrio externo da economia. Após a crise da dívida soberana, Portugal viu-se forçado a repensar o seu modelo económico, abandonando a dependência excessiva da procura interna e redirecionando o foco para as exportações. A resposta veio de setores como o têxtil, o calçado, a metalomecânica, a agricultura e a indústria automóvel, que conseguiram não só sobreviver, mas prosperar, em parte graças a investimentos estratégicos em inovação, qualidade e internacionalização.

Esta reorientação estratégica teve impactos positivos na balança comercial, contribuindo para reduzir o défice externo e reforçar a posição do país no contexto europeu. Mais do que isso, as exportações são hoje responsáveis por uma fatia significativa do PIB nacional, o que representa uma importante conquista para uma economia outrora muito fechada ao exterior.

Contudo, o sucesso dos bens transacionáveis não ocorre isoladamente. Ele depende fortemente da atração de investimento produtivo, tanto nacional como estrangeiro. Investimentos em tecnologia, infraestruturas, qualificação da força de trabalho e investigação e desenvolvimento (I&D) são fundamentais para elevar o valor acrescentado dos produtos portugueses e conquistar mercados mais exigentes. A aposta em cadeias de valor mais sofisticadas e na diversificação dos mercados de exportação é um caminho essencial para consolidar o crescimento.

Adicionalmente, a valorização dos bens transacionáveis tem um impacto positivo no emprego qualificado, promovendo melhores salários e estimulando a fixação de talento em território nacional. A economia ganha em coesão social e territorial, especialmente quando as exportações emergem de regiões fora dos grandes centros urbanos.

É certo que o setor dos bens não transacionáveis — como o imobiliário e alguns serviços internos — continua a desempenhar um papel importante na economia portuguesa. No entanto, estes setores tendem a gerar crescimento de curto prazo, muitas vezes apoiado em bolhas especulativas ou consumo financiado por crédito. Ao contrário, os bens transacionáveis impõem disciplina produtiva e são um motor de crescimento sustentado.

Em suma, o futuro da economia portuguesa depende, em grande medida, da sua capacidade de reforçar a competitividade externa. Para isso, é imperativo continuar a apoiar os setores exportadores, atrair investimento de qualidade e criar condições para que os bens transacionáveis liderem o crescimento.

Não se trata apenas de vender mais ao exterior, mas de transformar a estrutura produtiva do país rumo a um modelo mais inovador, equilibrado e duradouro.