A praga dos Generais-comentadores.
Generais a mais para um país em paz.
Nos últimos tempos, tornou-se quase impossível ligar a televisão sem
assistir ao desfile de generais — na sua maioria já na reforma — a comentarem
os conflitos internacionais, em particular a guerra entre a Rússia e a Ucrânia
ou as tensões com o Irão. A presença constante destas figuras levanta uma
questão incómoda, mas necessária: quantos generais precisa realmente um país como
Portugal?
Um General de Brigada, o escalão mais baixo da classe de
oficiais-generais, tem como função comandar uma brigada, normalmente composta
por três a cinco mil militares. Ora, considerando que as Forças Armadas
portuguesas contam com cerca de 24 mil efetivos, uma simples conta de
proporcionalidade sugere que um número muito reduzido de generais seria
suficiente para garantir a estrutura de comando. Ainda assim, o número de
oficiais-generais — no ativo e na reserva — parece largamente superior ao necessário.
Este aparente excesso torna-se ainda mais evidente quando se observa o
protagonismo mediático de muitos destes militares. A sua participação no debate
público é legítima e, em muitos casos, útil. No entanto, a frequência com que
surgem levanta dúvidas sobre se estamos perante uma elite sobredimensionada,
que encontra nos meios de comunicação uma forma de prolongar a sua relevância
após a carreira ativa.
Mas a questão não se esgota nos generais. Se descermos na hierarquia
militar para o universo dos oficiais, o problema adquire outra dimensão. Muitos
desempenham funções administrativas, afastadas da realidade operacional que
justificaria a sua formação e estatuto. Em vez de liderarem tropas no terreno,
acabam por ocupar cargos burocráticos, frequentemente indistinguíveis de
funções civis, mas com custos significativamente mais elevados para o erário
público.
Portugal não está em guerra, nem enfrenta ameaças militares diretas que
justifiquem uma estrutura pesada e hierarquicamente inflacionada. Num contexto
de paz e de recursos limitados, torna-se legítimo questionar a eficiência do
modelo atual. Será que estamos a investir na defesa nacional de forma
estratégica, ou apenas a sustentar uma máquina institucional desajustada da
realidade?
A discussão não deve ser simplista nem populista. As Forças Armadas
desempenham um papel essencial, não só na defesa, mas também em missões de
proteção civil, cooperação internacional e apoio em situações de emergência.
Contudo, isso não invalida a necessidade de uma reflexão séria sobre a sua
organização interna.
Num país onde frequentemente se exigem sacrifícios aos contribuintes, a
transparência e a racionalidade na gestão dos recursos públicos são
imperativas. E isso inclui, inevitavelmente, perguntar: quantos generais são
necessários?
A verdadeira questão é incómoda, mas inevitável: estamos a investir na
defesa nacional — ou apenas a sustentar uma estrutura que se perpetua a si
própria?