A VERTIGEM DO CRESCIMENTO DO CRÉDITO MALPARADO
(um aviso á “navegação”)
Nos
últimos anos, Portugal assistiu a um crescimento significativo do crédito às famílias,
tanto no crédito ao consumo como no crédito hipotecário.
A subida
acentuada das taxas de juro, combinada com uma inflação persistente e a perda
de poder de compra, está a criar um ambiente de forte pressão financeira sobre
milhares de famílias.
O crédito à habitação foi, durante anos, visto como relativamente
seguro, sobretudo devido às prestações reduzidas proporcionadas pela Euribor
negativa. Muitas famílias assumiram compromissos financeiros elevados,
acreditando que o contexto de juros baixos se manteria durante muito tempo.
Contudo, a rápida inversão da política monetária do Banco Central Europeu
alterou drasticamente a realidade. Em muitos casos, as prestações mensais
aumentaram centenas de euros em poucos meses, colocando pressão sobre orçamentos
familiares já fragilizados pelo aumento do custo de vida.
Paralelamente, o crédito ao consumo também registou um crescimento
expressivo. Cartões de crédito, créditos pessoais e financiamentos automóveis
continuaram a expandir-se, muitas vezes como forma de compensar a perda de
rendimento disponível. Esta dependência crescente do crédito para suportar
despesas correntes é um sinal preocupante de fragilidade económica das
famílias.
Perante este contexto, é expectável um aumento significativo dos
incumprimentos já ao longo deste ano. As famílias mais expostas a taxas
variáveis serão as primeiras a sentir dificuldades, mas o problema poderá
rapidamente alastrar a outros segmentos da população. A inflação continua
elevada em setores essenciais como alimentação, energia e habitação, reduzindo
drasticamente a capacidade das famílias para cumprir os seus compromissos
financeiros.
A banca portuguesa enfrenta agora um novo teste à sua resiliência.
Depois de anos de recuperação e reforço dos rácios de capital, os bancos poderão ser obrigados a aumentar
substancialmente as provisões para crédito malparado. O risco de imparidades
cresce à medida que aumentam os sinais de deterioração financeira dos clientes
particulares. Ainda que o sistema bancário esteja hoje mais sólido do que
na crise financeira anterior, a dimensão potencial do problema não deve ser
subestimada.
Nem
mesmo as medidas recentemente anunciadas para apoiar os jovens na compra de
habitação, incluindo linhas de crédito bonificadas e garantias do Estado,
estarão imunes ao actual contexto económico. Embora estas
iniciativas possam facilitar o acesso à habitação numa fase inicial, não
eliminam o risco associado à subida das taxas de juro e à degradação das
condições económicas. Muitos jovens
poderão acabar por assumir encargos demasiado elevados face aos seus
rendimentos futuros, especialmente num mercado de trabalho ainda marcado pela
precariedade e salários relativamente baixos.
Os próximos meses serão decisivos para perceber até que ponto o
sistema financeiro conseguirá absorver o impacto deste novo ciclo económico. O aumento dos incumprimentos poderá
provocar uma nova vaga de crédito malparado, obrigando os bancos a reconhecer
imparidades relevantes e a adotar critérios de concessão de crédito mais restritivos.
Isso poderá, por sua vez, travar o consumo e o investimento, agravando o
abrandamento económico.
Portugal entra assim numa fase particularmente delicada. O fim do dinheiro barato expôs vulnerabilidades acumuladas ao longo dos últimos anos. Famílias endividadas, inflacção persistente e juros elevados formam uma combinação perigosa que poderá marcar profundamente a economia nacional nos próximos tempos. O desafio será encontrar um equilíbrio entre a necessidade de controlar a inflacção e a protecção das famílias mais vulneráveis, evitando que a crise financeira se transforme numa crise social de maior dimensão.