quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

 

   Faltam Médicos no SNS por falta de estratégia do Estado

Fala-se constantemente da falta de médicos no SNS, mas evita-se discutir o essencial: a incompetência estratégica crónica dos sucessivos governos portugueses. O problema não é a falta de médicos formados — é a total ausência de planeamento, responsabilidade e exigência por parte do Estado.

Um piloto da Força Aérea Portuguesa faz a sua formação paga pelo erário público e, em contrapartida, fica legalmente obrigado a servir o Estado durante vários anos. Se decidir sair antes, indemniza o Estado. Simples, justo e lógico.

Já no caso dos médicos, o Estado paga a formação quase integralmente através dos impostos de todos nós e depois assiste passivamente à sua saída imediata para o setor privado, muitas vezes logo após a especialidade, sem qualquer obrigação de retorno. Isto é um desperdício deliberado de recursos públicos.

Não é aceitável que um país forme médicos a custo quase zero para eles próprios e depois os veja abandonar o SNS sem qualquer contrapartida, enquanto o sistema público colapsa. Isto não é liberdade profissional — é irresponsabilidade política.

Tal como acontece com os pilotos militares, deveria existir um regime claro: ou o médico presta um período mínimo obrigatório de serviço no SNS (por exemplo, 10 anos), ou então reembolsa o Estado pelos custos reais da sua formação.

Continuar a fingir que este problema se resolve com apelos à “vocação” ou com remendos salariais pontuais é hipocrisia política. O SNS não falha por falta de médicos — falha porque o Estado se recusa a exigir responsabilidades a quem beneficia do investimento público.

O SNS não está a falhar por causa dos médicos. Está a falhar porque o Estado recusa-se sistematicamente a impor regras mínimas a quem beneficia do investimento público.

Prefere empurrar o problema para a frente, gastar fortunas em tarefeiros e fingir surpresa todos os verões quando as urgências fecham.

 A solução é óbvia, mas politicamente “incómoda”:

·         ou serviço obrigatório no SNS por um número mínimo de anos,

·         ou devolução integral do custo da formação ao erário público.

Enquanto isto não mudar, continuaremos a formar médicos para outros — e a pagar duas vezes por um sistema que se recusa a defender a si próprio.

 

 

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