Faltam Médicos no SNS por falta de
estratégia do Estado
Fala-se constantemente da falta de médicos no SNS, mas evita-se discutir
o essencial: a incompetência estratégica crónica dos sucessivos governos
portugueses. O problema não é a falta de médicos formados — é a total
ausência de planeamento, responsabilidade e exigência por parte do Estado.
Um piloto da Força Aérea Portuguesa faz a sua formação paga pelo erário
público e, em contrapartida, fica legalmente obrigado a servir o Estado
durante vários anos. Se decidir sair antes, indemniza o Estado.
Simples, justo e lógico.
Já no caso dos médicos, o Estado paga a formação quase integralmente
através dos impostos de todos nós e depois assiste passivamente à sua
saída imediata para o setor privado, muitas vezes logo após a especialidade,
sem qualquer obrigação de retorno. Isto é um desperdício deliberado de
recursos públicos.
Não é aceitável que um país forme médicos a custo quase zero para eles
próprios e depois os veja abandonar o SNS sem qualquer contrapartida, enquanto
o sistema público colapsa. Isto não é liberdade profissional — é
irresponsabilidade política.
Tal como acontece com os pilotos militares, deveria existir um regime
claro: ou o médico presta um período mínimo obrigatório de serviço no SNS
(por exemplo, 10 anos), ou então reembolsa o Estado pelos custos reais da
sua formação.
Continuar a fingir que este problema se resolve com apelos à “vocação”
ou com remendos salariais pontuais é hipocrisia política. O SNS não
falha por falta de médicos — falha porque o Estado se recusa a exigir
responsabilidades a quem beneficia do investimento público.
O SNS não está a falhar por causa dos médicos. Está a
falhar porque o Estado recusa-se sistematicamente a impor regras mínimas
a quem beneficia do investimento público.
Prefere empurrar o problema para a frente, gastar
fortunas em tarefeiros e fingir surpresa todos os verões quando as urgências
fecham.
A solução é óbvia, mas politicamente “incómoda”:
·
ou
serviço obrigatório no SNS por um número mínimo de anos,
·
ou
devolução integral do custo da formação ao erário público.
Enquanto
isto não mudar, continuaremos a formar médicos para outros — e a pagar duas
vezes por um sistema que se recusa a defender a si próprio.
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