Geração Ecrã: a fábrica silenciosa
de ignorância
Há uma tragédia discreta a
desenrolar-se diante dos nossos olhos e que poucos parecem dispostos a
enfrentar com frontalidade: uma parte significativa da juventude está a ser intelectualmente
atrofiada pela dependência crónica dos telemóveis e das redes sociais. Não se
trata de um exagero moralista nem de nostalgia de gerações mais velhas —
trata-se de um diagnóstico cada vez mais visível nas salas de aula, nas
entrevistas de emprego e nas conversas quotidianas.
Nunca houve tanto acesso à
informação, e nunca foi tão evidente a incapacidade de a compreender. Jovens
que passam horas a deslizar o dedo num ecrã revelam dificuldades básicas em
interpretar um texto simples, em sustentar um raciocínio coerente ou em
articular uma ideia com princípio, meio e fim. A leitura profunda foi
substituída por fragmentos, títulos chamativos e vídeos de segundos; o
pensamento crítico cedeu lugar à reação impulsiva; a argumentação foi trocada
por emojis e slogans.
O problema não é a tecnologia
em si — é a submissão a ela. Uma geração inteira está a ser treinada para a
distração permanente, para a gratificação instantânea e para a
superficialidade. O cérebro, habituado a estímulos rápidos e constantes, perde
a tolerância ao esforço intelectual. Ler um livro torna-se “aborrecido”; escrever um texto estruturado parece uma tarefa
hercúlea; ouvir alguém durante mais de dois minutos sem interrupções soa quase
impossível.
As consequências não são
apenas individuais — são nacionais. Um país não se constrói com cidadãos
incapazes de interpretar informação, avaliar argumentos ou comunicar com
clareza. Uma sociedade que forma jovens dependentes, dispersos e
intelectualmente frágeis está a comprometer o seu próprio futuro. Não se trata
de elitismo: trata-se de sobrevivência cultural, económica e democrática.
Continuar a fingir que isto é
apenas “a evolução natural dos tempos”
é uma forma de cobardia coletiva. Se não houver um esforço sério de famílias,
escolas e instituições para reverter esta tendência — impondo limites,
incentivando a leitura, valorizando o pensamento estruturado — estaremos a
assistir, passivamente, ao embrutecimento progressivo de uma geração inteira.
E um país
que aceita o embrutecimento dos seus jovens está, no fundo, a aceitar o seu
próprio declínio.
Não há economia forte, democracia
saudável ou inovação séria sustentada por cidadãos intelectualmente frágeis.
Nenhuma nação prospera quando a distração substitui o discernimento.
Se nada mudar, não estaremos apenas
perante uma geração distraída — estaremos perante uma geração despreparada. Uma sociedade que normaliza a ignorância
dos seus jovens não está a evoluir: está a regredir.
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