sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 

        O Fio da Navalha – as Tempestades – as Inevitabilidades

                      - Quem resiste e quem fica pelo caminho -

 

O modelo Harrod-Domar – inglês e polaco, respectivamente, explica que o crescimento económico e o seu equilíbrio no longo prazo, sugere que é difícil manter um crescimento equilibrado com pleno emprego, pois depende de fatores exógenos – este equilíbrio chamaram os economistas anteriormente referenciados, o Equilíbrio no Fio da Navalha, exactamente pela dificuldade que tal perspectiva compagina.

As recentes tempestades que assolaram Portugal não provocaram apenas danos materiais, interrupções logísticas e prejuízos imediatos. Funcionaram, sobretudo, como um teste de resistência ao tecido empresarial nacional — uma espécie de prova de esforço real que veio expor fragilidades já existentes e distinguir empresas resilientes daquelas que há muito caminhavam no fio da navalha.

Em tempos de estabilidade, muitas debilidades estruturais permanecem disfarçadas. A atividade económica regular permite adiar decisões difíceis, prolongar modelos de negócio pouco sustentáveis e manter empresas em funcionamento apesar de fragilidades financeiras evidentes. No entanto, eventos extremos — sejam crises económicas, pandemias ou fenómenos climáticos severos — têm a capacidade de acelerar processos que, na prática, já estavam em curso.

As tempestades recentes criaram precisamente esse efeito de aceleração. Empresas com músculo financeiro, reservas de liquidez, capacidade de adaptação e gestão estratégica sólida conseguirão recuperar gradualmente a sua atividade produtiva. Algumas até aproveitarão o momento para se reorganizar, investir e reforçar a sua posição competitiva. Para estas organizações, a adversidade transforma-se num catalisador de inovação e crescimento.

Por outro lado, existem empresas cuja sobrevivência já dependia de equilíbrios frágeis: níveis elevados de endividamento, capitais próprios insuficientes, ausência de planeamento de risco, dependência excessiva de fluxos de caixa imediatos ou modelos de gestão pouco preparados para cenários adversos. Para estas, a tempestade não foi a causa do fim, mas sim o fator que tornou inevitável um desfecho que se vinha anunciando.

Fala-se frequentemente em fatalidade quando empresas encerram após acontecimentos extraordinários. Contudo, importa questionar até que ponto estamos perante inevitabilidade económica e não apenas azar circunstancial. A falta de gestão adequada, a incapacidade de reforçar capitais próprios em períodos favoráveis, a ausência de estratégias de diversificação ou a resistência à modernização são fatores que acumulam vulnerabilidades ao longo do tempo.

Isto não significa ignorar o impacto real das catástrofes naturais nem desvalorizar a necessidade de apoios públicos em momentos críticos. O Estado tem um papel relevante na mitigação de choques sistémicos e na proteção do emprego. Ainda assim, a resiliência empresarial constrói-se sobretudo antes das crises — através de governação prudente, planeamento financeiro e capacidade de antecipação.

As tempestades vieram, assim, criar uma espécie de seriação involuntária no tecido empresarial português: algumas empresas seguirão o seu caminho, adaptadas e reforçadas; outras encerram agora o seu ciclo económico. Este processo, embora duro, revela uma realidade incontornável — a sustentabilidade empresarial não se mede apenas nos períodos de crescimento, mas sobretudo na capacidade de resistir quando o contexto se torna adverso.

Talvez a principal lição seja esta: a verdadeira preparação para o futuro não começa quando surge a tempestade, mas muito antes, quando o céu ainda parece limpo.

 

 

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