O Fio
da Navalha – as Tempestades – as Inevitabilidades
- Quem resiste e quem
fica pelo caminho -
O modelo Harrod-Domar – inglês e polaco, respectivamente,
explica que o crescimento económico e o seu equilíbrio no longo prazo, sugere
que é difícil manter um crescimento equilibrado com pleno emprego, pois depende
de fatores exógenos – este equilíbrio chamaram os economistas anteriormente
referenciados, o Equilíbrio no Fio da Navalha, exactamente pela dificuldade que
tal perspectiva compagina.
As recentes tempestades que assolaram
Portugal não provocaram apenas danos materiais, interrupções logísticas e
prejuízos imediatos. Funcionaram, sobretudo, como um teste de resistência ao
tecido empresarial nacional — uma espécie de prova de esforço real que veio
expor fragilidades já existentes e distinguir empresas resilientes daquelas que
há muito caminhavam no fio da navalha.
Em tempos de estabilidade, muitas debilidades
estruturais permanecem disfarçadas. A atividade económica regular permite adiar
decisões difíceis, prolongar modelos de negócio pouco sustentáveis e manter
empresas em funcionamento apesar de fragilidades financeiras evidentes. No
entanto, eventos extremos — sejam crises económicas, pandemias ou fenómenos
climáticos severos — têm a capacidade de acelerar processos que, na prática, já
estavam em curso.
As tempestades recentes criaram precisamente
esse efeito de aceleração. Empresas com músculo financeiro, reservas de
liquidez, capacidade de adaptação e gestão estratégica sólida conseguirão
recuperar gradualmente a sua atividade produtiva. Algumas até aproveitarão o
momento para se reorganizar, investir e reforçar a sua posição competitiva.
Para estas organizações, a adversidade transforma-se num catalisador de
inovação e crescimento.
Por outro lado, existem empresas cuja
sobrevivência já dependia de equilíbrios frágeis: níveis elevados de
endividamento, capitais próprios insuficientes, ausência de planeamento de
risco, dependência excessiva de fluxos de caixa imediatos ou modelos de gestão
pouco preparados para cenários adversos. Para estas, a tempestade não foi a
causa do fim, mas sim o fator que tornou inevitável um desfecho que se vinha
anunciando.
Fala-se frequentemente em fatalidade quando
empresas encerram após acontecimentos extraordinários. Contudo, importa
questionar até que ponto estamos perante inevitabilidade económica e não apenas
azar circunstancial. A falta de gestão adequada, a incapacidade de reforçar
capitais próprios em períodos favoráveis, a ausência de estratégias de
diversificação ou a resistência à modernização são fatores que acumulam
vulnerabilidades ao longo do tempo.
Isto não significa ignorar o impacto real das
catástrofes naturais nem desvalorizar a necessidade de apoios públicos em
momentos críticos. O Estado tem um papel relevante na mitigação de choques
sistémicos e na proteção do emprego. Ainda assim, a resiliência empresarial
constrói-se sobretudo antes das crises — através de governação prudente, planeamento
financeiro e capacidade de antecipação.
As tempestades vieram, assim, criar uma
espécie de seriação involuntária no tecido empresarial português: algumas
empresas seguirão o seu caminho, adaptadas e reforçadas; outras encerram agora
o seu ciclo económico. Este processo, embora duro, revela uma realidade
incontornável — a sustentabilidade empresarial não se mede apenas nos períodos
de crescimento, mas sobretudo na capacidade de resistir quando o contexto se
torna adverso.
Talvez
a principal lição seja esta: a
verdadeira preparação para o futuro não começa quando surge a tempestade, mas
muito antes, quando o céu ainda parece limpo.
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