quarta-feira, 13 de maio de 2026

 

  Quando a guerra dá lucro: o escândalo das gasolineiras

Há uma regra não escrita no mercado dos combustíveis: sempre que rebenta uma guerra no Médio Oriente, os consumidores sabem o que vem a seguir. Primeiro surgem as imagens de mísseis, explosões e navios militares no Golfo Pérsico. Depois aparecem os “receios dos mercados”. E, poucos dias depois, chegam os aumentos na bomba de gasolina.

O conflito envolvendo o Irão voltou a mostrar a rapidez com que as gasolineiras transformam tensão geopolítica em margens milionárias. O barril de petróleo sobe nos mercados internacionais e, quase por magia, o preço dos combustíveis dispara imediatamente. Mas quando o petróleo desce? Aí a pressa desaparece. As descidas chegam lentamente, aos poucos, como se houvesse sempre uma desculpa técnica para adiar o alívio aos consumidores.

No meio desta lógica perversa, há vencedores claros: as grandes petrolíferas. Enquanto famílias fazem contas para conseguir encher o depósito e empresas enfrentam custos de transporte cada vez mais elevados, os gigantes da energia anunciam lucros recorde. A guerra torna-se oportunidade de negócio. O medo transforma-se em dividendos.

O mais revoltante é a normalização deste mecanismo. Já quase ninguém estranha que empresas energéticas apresentem resultados históricos precisamente em períodos de crise internacional. Fala-se de “mercado”, de “instabilidade”, de “ajustamento de preços”, como se tudo fosse inevitável.

Mas não é inevitável que uma crise internacional sirva de justificação para lucros tão elevados à custa de milhões de consumidores sem alternativa.

As gasolineiras gostam de repetir que os preços dependem apenas do mercado internacional. É meia verdade. Dependem também das margens que decidem aplicar, da especulação financeira e da forma como aproveitam o clima de incerteza para maximizar receitas. E quando existe pouca concorrência real no sector, o consumidor fica encurralado: paga mais ou deixa o carro parado.

A ironia é cruel. Uma guerra que destrói vidas, cidades e economias transforma-se, ao mesmo tempo, numa fonte extraordinária de rentabilidade para multinacionais energéticas. Enquanto civis vivem sob bombas, acionistas recebem dividendos históricos. É difícil imaginar retrato mais brutal de um sistema económico que consegue lucrar até com o caos.

Também os governos têm responsabilidade nesta realidade. Muitos mostram indignação pública perante o aumento dos combustíveis, mas continuam dependentes das receitas fiscais geradas por esses mesmos aumentos. O Estado arrecada mais IVA quanto maior for o preço final pago pelos consumidores. No fundo, há demasiada gente a ganhar com combustíveis caros — menos quem trabalha, conduz e paga.

A discussão sobre taxar lucros excessivos das petrolíferas devia deixar de ser tabu. Se empresas acumulam ganhos extraordinários graças a uma crise internacional e à especulação em torno da guerra, então esses lucros extraordinários devem ser alvo de intervenção pública. Não para punir o sucesso empresarial, mas para impedir que tragédias globais sejam convertidas em jackpots privados.

Porque há algo profundamente errado num mundo em que uma guerra no Irão significa sofrimento para milhões e, simultaneamente, celebração silenciosa nas sedes das petrolíferas.

 

    

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

 

             A DIMINUIÇÃO DA IDADE DA REFORMA –

    IDEIA PATÉTICA, POPULISTA E IRRESPONSÁVEL   

A discussão sobre a idade da reforma é um daqueles temas onde a emoção facilmente se sobrepõe à razão — e é precisamente aí que o populismo patético e imbecil, encontra terreno fértil.

Defender a redução da idade da reforma pode soar apelativo. Afinal, quem não gostaria de trabalhar menos anos e usufruir mais cedo de um descanso merecido? O problema é que esta ideia, apesar de sedutora, ignora completamente a realidade demográfica e económica.

Vivemos mais anos do que nunca. A esperança média de vida aumentou significativamente nas últimas décadas, enquanto a taxa de natalidade diminuiu. Isto significa que há cada vez menos trabalhadores ativos a sustentar um número crescente de pensionistas. O sistema de pensões, baseado na solidariedade intergeracional, fica assim sob enorme pressão.

Neste contexto, baixar a idade da reforma não é apenas irresponsável — é potencialmente destrutivo para o próprio sistema. Se hoje já se antecipa que muitas reformas futuras serão mais baixas devido ao desequilíbrio entre contribuições e pagamentos, reduzir ainda mais o tempo de contribuição só agravaria o problema. Menos anos a descontar e mais anos a receber pensão é uma equação que simplesmente não quadra!

Os discursos populistas e patéticos ignoram estes factos. Prometem soluções fáceis para problemas complexos, dizendo exatamente aquilo que as pessoas querem ouvir, sem apresentar sustentabilidade a longo prazo. É uma estratégia economicamente perigosa.

 

A realidade é dura, mas inevitável: para garantir que o sistema de pensões continue a existir, será necessário ajustá-lo às novas condições demográficas. Isso pode passar por aumentar — ou pelo menos manter — a idade da reforma, incentivar carreiras contributivas mais longas e promover políticas que reforcem a base de contribuintes.

Dizer o contrário pode render aplausos imediatos, mas compromete o futuro. E quando falamos de pensões, estamos a falar da segurança financeira de milhões de pessoas. Isso exige responsabilidade, não ilusões.

Baixar a idade da reforma hoje é passar uma factura gigantesca às gerações futuras. É dizer-lhes: “vocês que resolvam”. É uma forma elegante de irresponsabilidade.

A ideia de baixar a idade da reforma não é apenas ingénua — é uma espécie de conto de fadas político contado a adultos que deviam saber fazer contas.

 

 

 

 

 



                          O MEU 25 DE ABRIL DE 1974

Era uma quinta-feira igual a tantas outras (pensava eu).

Tinha aulas às 8h – Contabilidade de 2h.

Acordei ao som do rádio (hábito que ainda hoje preservo) e de facto, a música que ouvi no então RCP – Rádio Clube Português, não era aquela música que estava habituado a ouvir ao despertar. Era uma música de um som (que à época), não era o meu. Mas nada me fez desconfiar.

Sei que tomei o pequeno-almoço á pressa (como sempre acontecia, para as aulas ás 8h da manhã) e segui para a Escola.

Ao chegar á Escola, o ambiente estava perfeitamente normal. Como era uma aula de 2h, tínhamos um intervalo de 10 minutos às 9h e aí sim, quando caímos já havia uns murmúrios que qualquer “coisa” de extraordinário se estava a passar, mas a campainha tocou e voltámos todos á sala para mais uma hora de Contabilidade.

Quando saímos às 10h, aí sim, já havia conversas mais substantivas de que um golpe militar tinha acontecido. Já não houve mais aulas e a parte da manhã (até á hora do almoço) foi passada toda na Escola com todos os colegas a tentarmos saber o que realmente tinha acontecido.

Tínhamos a sorte da Escola ter um padre extremamente esclarecido, com uma excelente relação com os alunos e que nos ia pondo ao corrente do que se estava a passar.

Entre nós, havia um colega (que hoje e infelizmente já não está entre nós), que para a época e idade, era muito esclarecido politicamente e que ia avaliando com a família os acontecimentos e que ao mesmo tempo nos ia esclarecendo.

Para todos nós, o pensamento era só um – a guerra vai acabar e nós já não teremos de ir para África !

Mas a ideia de ir combater para África, era uma ideia que bem metade de nós nunca tinha passado pela cabeça, porque se chegasse esse momento, a maior parte de nós já sabia o que iria fazer – exilar-se em França (a maior parte) e alguns para Inglaterra.

Já não houve mais aulas não só nessa quinta-feira, mas o resto da semana. A Escola dispensou alunos e professores.

A parte da tarde e noite, foi passada com os ouvidos nos rádios, a perceber o que tinha acontecido. Ainda estava presente o fracasso do golpe das Caldas da Rainha, e temíamos que este pudesse redundar no mesmo. Mas para alegria e regozijo de todos, não foi esse o caso.

Na sexta-feira e nesse fim-de-semana, em toda a cidade era um mar de contentamento e alegria, por (finalmente) o regime ter caído e trazer novas esperanças e ilusões para todos, particularmente para nós jovens, ao dar-nos uma abertura que não sonhávamos naquela manhã de quinta-feira.

Foi um dia, que ainda hoje e passados 52 anos sobre o mesmo, me recordo perfeitamente. Dos locais e dos amigos desse dia; por onde andámos, o que ouvimos, o que pensámos, os projectos que sonhámos para o nosso futuro e sobretudo não termos que ser confrontados com a hipótese (para muitos de nós completamente improvável) de irmos para África.

Sinto que fiz parte da História deste Portugal de hoje !

Vivi o dia que muitos que irão ler este meu “post” não viveram, e para mim ter vivido esse dia, foi um privilégio que guardarei até á hora que partir !

Vivi esse dia com a maior intensidade que se possa imaginar, acreditando que ele me iria abrir portas, para que no futuro me pudesse exprimir e manifestar de forma livre, mas com responsabilidade e sentido de cidadania.

Quero deixar aqui a minha homenagem a duas pessoas que marcaram muito o nosso caminho (meu e dos meus colegas) da época – ao Padre Alves Dias e ao nosso Director Dr. Leonel Pimentel.