sábado, 4 de julho de 2026

 

       QUANDO A JUSTIÇA DEIXA DE PARECER JUSTIÇA

                                   O caso BES/Salgado  

A decisão do Tribunal Central Criminal de Lisboa de suspender a execução da pena de 13 anos de prisão aplicada a Ricardo Salgado, com fundamento no seu estado de saúde, voltou a abrir uma ferida que nunca cicatrizou na sociedade portuguesa. Não surpreende, por isso, que cerca de 70% dos portugueses considerem que esta decisão prejudica a imagem da Justiça. O espanto seria precisamente o contrário.

Ninguém nega que a doença de Alzheimer seja grave e mereça respeito. A dignidade humana deve ser preservada em qualquer circunstância. Mas há uma pergunta que continua sem resposta: onde esteve a preocupação com a dignidade dos milhares de lesados que perderam as poupanças de uma vida? Quem olha pelos reformados, pelas famílias e pelos pequenos investidores que confiaram nas instituições financeiras e viram o seu património desaparecer? Muitos perderam muito mais do que dinheiro. Perderam projetos de vida, estabilidade emocional, saúde e confiança no Estado.

Para essas pessoas, não houve suspensão do sofrimento. Não houve atestado médico que lhes devolvesse as economias perdidas, nem decisão judicial que apagasse anos de angústia, depressão e dificuldades económicas. Muitos morreram sem recuperar um único euro. Outros continuam, ainda hoje, a pagar as consequências de decisões pelas quais nunca tiveram qualquer responsabilidade.

É precisamente por isso que esta decisão é tão difícil de aceitar. A Justiça deve ser imparcial, mas também deve transmitir um sentido de responsabilidade e de reparação moral. Quando um cidadão comum comete um crime, dificilmente encontra mecanismos que lhe permitam escapar ao cumprimento da pena.

Quando se trata de figuras poderosas, porém, a sucessão de recursos, adiamentos e circunstâncias excecionais acaba demasiadas vezes por impedir que a condenação tenha consequências efetivas.

A lentidão da Justiça portuguesa também não pode ser ignorada. Se processos desta dimensão fossem julgados em tempo útil, talvez a execução das penas não esbarrasse em problemas decorrentes da idade ou da saúde dos condenados. A demora transforma-se, na prática, num benefício para quem dispõe de recursos para prolongar os processos durante anos, ou mesmo décadas.

Salgado foi considerado culpado e condenado a uma pena pesada. Essa condenação representava, para muitos portugueses, um sinal de que ninguém estaria acima da lei. Ao ser suspensa a sua execução, esse sinal perde força. A mensagem que fica é a de que o sistema consegue condenar, mas nem sempre consegue fazer cumprir as suas próprias decisões.

É evidente que a doença merece consideração e que o Estado de direito impõe limites à execução das penas. Mas também é legítimo perguntar se a justiça feita apenas ao condenado pode ser considerada justiça plena, quando milhares de vítimas continuam sem qualquer sentimento de reparação. O sofrimento dos lesados também deveria pesar na consciência coletiva e nas decisões que moldam a confiança nas instituições.

Talvez o cumprimento efetivo da pena nunca devolvesse o dinheiro perdido às vítimas. Talvez não apagasse anos de desespero nem reconstruísse vidas destruídas. Mas representaria algo igualmente importante: a afirmação inequívoca de que, em Portugal, quem causa prejuízos devastadores à vida de milhares de pessoas responde pelos seus atos até ao fim. Para os lesados, seria um raro sinal de que o Estado não esqueceu o seu sofrimento. Para a sociedade, seria uma demonstração de que a Justiça não distingue entre os poderosos e os restantes cidadãos.

Enquanto essa perceção não existir, continuará a instalar-se a ideia de que há crimes cujas vítimas carregam a pena para toda a vida, enquanto os seus responsáveis conseguem, por diferentes circunstâncias, escapar ao peso das consequências. E essa é uma realidade que corrói a confiança dos portugueses muito mais profundamente do que qualquer sondagem consegue medir.