quinta-feira, 30 de julho de 2026

 


                         DIA DE EXAME:

 

Quem nasceu nas décadas de 50 e 60: uma geração marcada pela simplicidade e pelo respeito

As pessoas que nasceram nas décadas de 1950 e 1960 cresceram num mundo muito diferente daquele que conhecemos hoje. Não existiam telemóveis, internet nem redes sociais. A vida era mais simples, as famílias conviviam mais e os jovens passavam grande parte do tempo ao ar livre. Na minha opinião, esta geração aprendeu valores que continuam a ser importantes, como o respeito, a responsabilidade e a solidariedade.

Na infância, as brincadeiras aconteciam nas ruas, nos campos ou nos pátios das escolas. As crianças jogavam à bola, andavam de bicicleta, saltavam à corda e inventavam jogos com poucos recursos. Como não havia tecnologia para ocupar o tempo, o convívio era mais direto e as amizades eram construídas através da convivência diária.

Muitos jovens começaram a trabalhar cedo para ajudar as famílias e aprenderam rapidamente o valor do esforço. Os pais e os professores eram figuras de autoridade muito respeitadas, e a educação era mais rigorosa. Embora existissem menos oportunidades de estudo do que hoje, havia um forte sentido de responsabilidade e de compromisso.

Os conflitos entre os jovens também existiam, mas eram geralmente resolvidos de forma diferente. Quando surgiam discussões, era comum conversar frente a frente, pedir desculpa ou fazer as pazes depois de algum tempo.

 

Em alguns casos havia lutas ou desentendimentos, mas esses conflitos terminavam normalmente no momento e não continuavam através das redes sociais, como acontece atualmente. Além disso, os familiares, os professores ou até os vizinhos intervinham para ajudar a resolver os problemas e incentivar a reconciliação.

É claro que nem tudo era melhor. Muitas famílias enfrentavam dificuldades económicas, havia menos acesso à educação e aos cuidados de saúde, e alguns jovens tinham de abandonar a escola para trabalhar. No entanto, havia um maior contacto entre as pessoas, mais tempo para conversar e um forte espírito de comunidade.

Em conclusão, quem nasceu nas décadas de 50 e 60 viveu uma época de grandes mudanças e ajudou a construir a sociedade atual. Apesar das dificuldades, esta geração demonstrou capacidade de adaptação e deixou um importante legado de trabalho, respeito e união. Penso que os jovens de hoje podem aprender com essa geração que muitos conflitos se resolvem melhor através do diálogo, da compreensão e do respeito mútuo do que pela agressividade ou pela exposição nas redes sociais.

 

 

 

     Mariano Rajoy : Não havia necessidade!

O futebol desperta paixões, alimenta rivalidades e mobiliza milhões de pessoas. Mas precisamente por essa capacidade de influenciar emoções, exige prudência quando é comentado por figuras políticas de grande relevo. As recentes declarações de Mariano Rajoy sobre os jogadores da seleção francesa levantam uma questão que vai muito além do desporto: até que ponto deve um antigo primeiro-ministro envolver-se em polémicas desta natureza?

Um político que exerceu o cargo de chefe de Governo representa uma instituição e uma tradição democrática que não desaparecem quando abandona funções. As suas palavras continuam a ter peso e impacto público. Por isso, quando entra num terreno tão sensível como o futebol internacional, sobretudo fazendo referências aos jogadores de uma seleção nacional, corre o risco de alimentar divisões desnecessárias e de desviar o debate dos verdadeiros problemas da sociedade.

O futebol já vive, por si só, num ambiente frequentemente marcado por interesses económicos, rivalidades exacerbadas e polémicas permanentes. Não necessita da intervenção de antigos líderes políticos para aumentar a tensão. Pelo contrário, espera-se que personalidades com a experiência de Mariano Rajoy contribuam para elevar o debate público, e não para alimentar discussões que facilmente podem ser interpretadas como nacionalistas ou até xenófobas.

 

Mesmo que não tenha sido essa a intenção, declarações deste género expõem quem as profere a críticas evitáveis. Num contexto europeu que valoriza a diversidade e a integração, qualquer comentário sobre a origem ou identidade dos jogadores de uma seleção pode ser entendido como uma tentativa de colocar em causa a legitimidade de atletas que representam o seu país de acordo com as regras e os valores do desporto.

Além disso, intervenções deste tipo acabam por descredibilizar a própria classe política. Os cidadãos esperam dos seus antigos governantes reflexões sobre economia, democracia, segurança ou política internacional, e não opiniões que alimentem polémicas futebolísticas. Quando um ex-primeiro-ministro escolhe esse caminho, arrisca-se a banalizar o prestígio do cargo que ocupou e a contribuir para a crescente desconfiança dos cidadãos em relação à política.

O futebol deve continuar a ser um espaço de competição, respeito e celebração do talento, independentemente da origem dos jogadores. Aos políticos, especialmente aos que exerceram as mais altas funções do Estado, exige-se sentido de responsabilidade, ponderação e consciência do impacto das suas palavras. Há debates que enriquecem a democracia; este dificilmente será um deles.

 

 

A FIFA ajoelha-se ao poder político: o dia em que a credibilidade do futebol ficou em jogo

 

O futebol vive da sua credibilidade. Sem regras iguais para todos, sem árbitros independentes e sem organismos disciplinares imunes a pressões externas, deixa de ser um desporto para passar a ser um espetáculo manipulado pelos interesses dos mais poderosos.   A decisão da FIFA de suspender a sanção aplicada ao internacional norte-americano Folarin Balogun, precisamente após uma intervenção direta do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto de Gianni Infantino, representa um dos episódios mais graves da história recente do futebol mundial.                        Durante décadas, a FIFA repetiu um princípio quase sagrado: "nenhuma interferência política no futebol". Esse argumento foi utilizado para suspender federações nacionais, impedir governos de intervirem nas suas associações e até excluir países de competições internacionais. Agora, afinal, descobre-se que esse princípio parece ter uma exceção: quando a chamada vem da Casa Branca.  A questão nem sequer é saber se Balogun merecia ou não cumprir o castigo. Os lances polémicos fazem parte do futebol. O problema reside no facto de milhões de adeptos terem assistido à transformação de um processo disciplinar numa decisão política. Que mensagem recebe o mundo?  Que um jogador comum cumpre a suspensão. Mas um jogador da seleção anfitriã pode beneficiar de uma chamada telefónica do Presidente do país.

Se isto não constitui um precedente perigosíssimo, então é difícil imaginar o que será. A FIFA passa décadas a proclamar independência, imparcialidade e igualdade entre as federações. Contudo, bastou uma intervenção política de alto nível para alterar uma decisão que, em circunstâncias normais, seria automática.

A consequência é devastadora.                

Como poderá a FIFA voltar a exigir autonomia às federações africanas, asiáticas ou sul-americanas quando ela própria se mostra vulnerável à pressão política da maior potência mundial?

Como poderá voltar a punir governos por interferência quando aceita que um chefe de Estado influencie um processo disciplinar em pleno Campeonato do Mundo?

Este caso destrói um dos pilares da legitimidade institucional da organização. Ainda mais preocupante é o simbolismo.

O Mundial de 2026 realiza-se em território norte-americano. A seleção dos Estados Unidos disputa uma fase decisiva da competição. O presidente do país intervém diretamente. A FIFA altera a decisão. Mesmo que juridicamente encontre fundamento para justificar a medida, politicamente a perceção está criada: o poder falou mais alto do que o regulamento.

E no desporto, a perceção vale quase tanto como os factos. Os adversários dos Estados Unidos têm hoje razões legítimas para questionar se competem em igualdade de circunstâncias. Os adeptos perguntam-se se todos os jogadores são tratados da mesma forma. E o mundo percebe que a influência política pode, afinal, chegar onde sempre se disse que nunca chegaria: ao coração da justiça desportiva.

Gianni Infantino sai profundamente fragilizado.

Um presidente da FIFA deve proteger a instituição das pressões políticas, não dar a imagem de lhes abrir a porta. Se a organização quiser preservar a pouca autoridade moral que ainda lhe resta, terá de explicar, de forma transparente e convincente, porque motivo esta decisão foi excecional e por que razão não representa um privilégio concedido ao país organizador.

Caso contrário, ficará para a história a ideia de que, no Mundial de 2026, houve equipas que jogaram apenas contra onze adversários e outras que tiveram de enfrentar também o peso da política.

E, quando isso acontece, quem perde nunca é apenas um adversário.

Quem perde é o próprio futebol.

sábado, 4 de julho de 2026

 

       QUANDO A JUSTIÇA DEIXA DE PARECER JUSTIÇA

                                   O caso BES/Salgado  

A decisão do Tribunal Central Criminal de Lisboa de suspender a execução da pena de 13 anos de prisão aplicada a Ricardo Salgado, com fundamento no seu estado de saúde, voltou a abrir uma ferida que nunca cicatrizou na sociedade portuguesa. Não surpreende, por isso, que cerca de 70% dos portugueses considerem que esta decisão prejudica a imagem da Justiça. O espanto seria precisamente o contrário.

Ninguém nega que a doença de Alzheimer seja grave e mereça respeito. A dignidade humana deve ser preservada em qualquer circunstância. Mas há uma pergunta que continua sem resposta: onde esteve a preocupação com a dignidade dos milhares de lesados que perderam as poupanças de uma vida? Quem olha pelos reformados, pelas famílias e pelos pequenos investidores que confiaram nas instituições financeiras e viram o seu património desaparecer? Muitos perderam muito mais do que dinheiro. Perderam projetos de vida, estabilidade emocional, saúde e confiança no Estado.

Para essas pessoas, não houve suspensão do sofrimento. Não houve atestado médico que lhes devolvesse as economias perdidas, nem decisão judicial que apagasse anos de angústia, depressão e dificuldades económicas. Muitos morreram sem recuperar um único euro. Outros continuam, ainda hoje, a pagar as consequências de decisões pelas quais nunca tiveram qualquer responsabilidade.

É precisamente por isso que esta decisão é tão difícil de aceitar. A Justiça deve ser imparcial, mas também deve transmitir um sentido de responsabilidade e de reparação moral. Quando um cidadão comum comete um crime, dificilmente encontra mecanismos que lhe permitam escapar ao cumprimento da pena.

Quando se trata de figuras poderosas, porém, a sucessão de recursos, adiamentos e circunstâncias excecionais acaba demasiadas vezes por impedir que a condenação tenha consequências efetivas.

A lentidão da Justiça portuguesa também não pode ser ignorada. Se processos desta dimensão fossem julgados em tempo útil, talvez a execução das penas não esbarrasse em problemas decorrentes da idade ou da saúde dos condenados. A demora transforma-se, na prática, num benefício para quem dispõe de recursos para prolongar os processos durante anos, ou mesmo décadas.

Salgado foi considerado culpado e condenado a uma pena pesada. Essa condenação representava, para muitos portugueses, um sinal de que ninguém estaria acima da lei. Ao ser suspensa a sua execução, esse sinal perde força. A mensagem que fica é a de que o sistema consegue condenar, mas nem sempre consegue fazer cumprir as suas próprias decisões.

É evidente que a doença merece consideração e que o Estado de direito impõe limites à execução das penas. Mas também é legítimo perguntar se a justiça feita apenas ao condenado pode ser considerada justiça plena, quando milhares de vítimas continuam sem qualquer sentimento de reparação. O sofrimento dos lesados também deveria pesar na consciência coletiva e nas decisões que moldam a confiança nas instituições.

Talvez o cumprimento efetivo da pena nunca devolvesse o dinheiro perdido às vítimas. Talvez não apagasse anos de desespero nem reconstruísse vidas destruídas. Mas representaria algo igualmente importante: a afirmação inequívoca de que, em Portugal, quem causa prejuízos devastadores à vida de milhares de pessoas responde pelos seus atos até ao fim. Para os lesados, seria um raro sinal de que o Estado não esqueceu o seu sofrimento. Para a sociedade, seria uma demonstração de que a Justiça não distingue entre os poderosos e os restantes cidadãos.

Enquanto essa perceção não existir, continuará a instalar-se a ideia de que há crimes cujas vítimas carregam a pena para toda a vida, enquanto os seus responsáveis conseguem, por diferentes circunstâncias, escapar ao peso das consequências. E essa é uma realidade que corrói a confiança dos portugueses muito mais profundamente do que qualquer sondagem consegue medir.