A quem serve esta Greve Geral
?
A greve geral convocada para 3 de Junho
levanta uma questão que raramente é discutida com frontalidade: quem são,
afinal, os trabalhadores que mais aderem a este tipo de protesto e quem são
aqueles que, teoricamente, mais teriam a ganhar com as reivindicações
apresentadas?
Observando a realidade portuguesa,
verifica-se que a maior capacidade de mobilização sindical continua a encontrar-se
no sector público, seja no sector público administrativo, seja no sector
empresarial do Estado. São trabalhadores que, em regra, beneficiam de níveis de
estabilidade laboral superiores aos existentes no sector privado, estando menos
expostos a fenómenos como despedimentos, “outsourcing”,
precariedade contratual ou banco de horas.
Por outro lado, muitas das alterações à
legislação laboral que têm suscitado controvérsia ao longo dos últimos tempos,
afectam sobretudo os trabalhadores do sector privado. São estes que enfrentam,
com maior frequência, a pressão da concorrência, a flexibilidade laboral e a
incerteza quanto à manutenção do emprego. No entanto, paradoxalmente, são
também estes trabalhadores que tendem a aderir menos às greves gerais.
Esta realidade cria um aparente desfasamento
entre os protagonistas da contestação e aqueles que constituem o principal alvo
das medidas contestadas. A greve geral acaba, assim, por assumir uma dimensão
predominantemente política, mais do que estritamente laboral.
O principal impulsionador desta paralisação
continua a ser a CGTP, organização historicamente próxima do Partido Comunista
Português. Num momento em que o PCP enfrenta uma progressiva perda de
influência eleitoral e parlamentar, a greve surge como uma oportunidade para
mostrar que ainda existe capacidade de mobilização nas ruas e nos locais de
trabalho.
Neste contexto, é legítimo questionar se a
convocação da greve responde efectivamente às preocupações concretas da maioria
dos trabalhadores portugueses ou se representa, acima de tudo, uma demonstração
de força das estruturas sindicais e políticas que a promovem. Os seus
defensores argumentarão que a solidariedade entre trabalhadores justifica a
mobilização colectiva.
Os críticos, pelo contrário, verão nesta
greve uma iniciativa de natureza essencialmente política, destinada a manter a
relevância pública de determinadas organizações sindicais e partidárias,
particularmente uma prova de vida do Partido Comunista, que não passa de um
partido residual na Assembleia da República.
Independentemente
da posição adoptada, a greve de 3 de Junho evidencia uma contradição que merece
reflexão: aqueles que mais sofrem os efeitos das mudanças no mercado de
trabalho são, frequentemente, os que menos participam nos instrumentos
tradicionais de contestação laboral.
A questão que fica é simples: estamos perante uma greve
dos trabalhadores portugueses ou perante uma manifestação política promovida
por estruturas que procuram provar que ainda mantêm relevância pública?