quinta-feira, 30 de julho de 2026

 

A FIFA ajoelha-se ao poder político: o dia em que a credibilidade do futebol ficou em jogo

 

O futebol vive da sua credibilidade. Sem regras iguais para todos, sem árbitros independentes e sem organismos disciplinares imunes a pressões externas, deixa de ser um desporto para passar a ser um espetáculo manipulado pelos interesses dos mais poderosos.   A decisão da FIFA de suspender a sanção aplicada ao internacional norte-americano Folarin Balogun, precisamente após uma intervenção direta do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto de Gianni Infantino, representa um dos episódios mais graves da história recente do futebol mundial.                        Durante décadas, a FIFA repetiu um princípio quase sagrado: "nenhuma interferência política no futebol". Esse argumento foi utilizado para suspender federações nacionais, impedir governos de intervirem nas suas associações e até excluir países de competições internacionais. Agora, afinal, descobre-se que esse princípio parece ter uma exceção: quando a chamada vem da Casa Branca.  A questão nem sequer é saber se Balogun merecia ou não cumprir o castigo. Os lances polémicos fazem parte do futebol. O problema reside no facto de milhões de adeptos terem assistido à transformação de um processo disciplinar numa decisão política. Que mensagem recebe o mundo?  Que um jogador comum cumpre a suspensão. Mas um jogador da seleção anfitriã pode beneficiar de uma chamada telefónica do Presidente do país.

Se isto não constitui um precedente perigosíssimo, então é difícil imaginar o que será. A FIFA passa décadas a proclamar independência, imparcialidade e igualdade entre as federações. Contudo, bastou uma intervenção política de alto nível para alterar uma decisão que, em circunstâncias normais, seria automática.

A consequência é devastadora.                

Como poderá a FIFA voltar a exigir autonomia às federações africanas, asiáticas ou sul-americanas quando ela própria se mostra vulnerável à pressão política da maior potência mundial?

Como poderá voltar a punir governos por interferência quando aceita que um chefe de Estado influencie um processo disciplinar em pleno Campeonato do Mundo?

Este caso destrói um dos pilares da legitimidade institucional da organização. Ainda mais preocupante é o simbolismo.

O Mundial de 2026 realiza-se em território norte-americano. A seleção dos Estados Unidos disputa uma fase decisiva da competição. O presidente do país intervém diretamente. A FIFA altera a decisão. Mesmo que juridicamente encontre fundamento para justificar a medida, politicamente a perceção está criada: o poder falou mais alto do que o regulamento.

E no desporto, a perceção vale quase tanto como os factos. Os adversários dos Estados Unidos têm hoje razões legítimas para questionar se competem em igualdade de circunstâncias. Os adeptos perguntam-se se todos os jogadores são tratados da mesma forma. E o mundo percebe que a influência política pode, afinal, chegar onde sempre se disse que nunca chegaria: ao coração da justiça desportiva.

Gianni Infantino sai profundamente fragilizado.

Um presidente da FIFA deve proteger a instituição das pressões políticas, não dar a imagem de lhes abrir a porta. Se a organização quiser preservar a pouca autoridade moral que ainda lhe resta, terá de explicar, de forma transparente e convincente, porque motivo esta decisão foi excecional e por que razão não representa um privilégio concedido ao país organizador.

Caso contrário, ficará para a história a ideia de que, no Mundial de 2026, houve equipas que jogaram apenas contra onze adversários e outras que tiveram de enfrentar também o peso da política.

E, quando isso acontece, quem perde nunca é apenas um adversário.

Quem perde é o próprio futebol.

Sem comentários:

Enviar um comentário