Quando a guerra dá lucro: o escândalo das
gasolineiras
Há uma regra não escrita no mercado dos combustíveis: sempre que rebenta
uma guerra no Médio Oriente, os consumidores sabem o que vem a seguir. Primeiro
surgem as imagens de mísseis, explosões e navios militares no Golfo Pérsico.
Depois aparecem os “receios dos mercados”.
E, poucos dias depois, chegam os aumentos na bomba de gasolina.
O conflito envolvendo o Irão voltou a mostrar a rapidez com que as
gasolineiras transformam tensão geopolítica em margens milionárias. O barril de
petróleo sobe nos mercados internacionais e, quase por magia, o preço dos
combustíveis dispara imediatamente. Mas quando o petróleo desce? Aí a pressa
desaparece. As descidas chegam lentamente, aos poucos, como se houvesse sempre
uma desculpa técnica para adiar o alívio aos consumidores.
No meio desta lógica perversa, há vencedores claros: as grandes
petrolíferas. Enquanto famílias fazem contas para conseguir encher o depósito e
empresas enfrentam custos de transporte cada vez mais elevados, os gigantes da
energia anunciam lucros recorde. A guerra torna-se oportunidade de negócio. O
medo transforma-se em dividendos.
O mais revoltante é a normalização deste mecanismo. Já quase ninguém
estranha que empresas energéticas apresentem resultados históricos precisamente
em períodos de crise internacional. Fala-se de “mercado”, de “instabilidade”,
de “ajustamento de preços”, como se
tudo fosse inevitável.
Mas não é inevitável que uma crise internacional sirva de justificação
para lucros tão elevados à custa de milhões de consumidores sem alternativa.
As gasolineiras gostam de repetir que os preços dependem apenas do
mercado internacional. É meia verdade. Dependem também das margens que decidem
aplicar, da especulação financeira e da forma como aproveitam o clima de
incerteza para maximizar receitas. E quando existe pouca concorrência real no
sector, o consumidor fica encurralado: paga mais ou deixa o carro parado.
A ironia é cruel. Uma guerra que destrói vidas, cidades e economias
transforma-se, ao mesmo tempo, numa fonte extraordinária de rentabilidade para
multinacionais energéticas. Enquanto civis vivem sob bombas, acionistas recebem
dividendos históricos. É difícil imaginar retrato mais brutal de um sistema
económico que consegue lucrar até com o caos.
Também os governos têm responsabilidade nesta realidade. Muitos mostram
indignação pública perante o aumento dos combustíveis, mas continuam
dependentes das receitas fiscais geradas por esses mesmos aumentos. O Estado
arrecada mais IVA quanto maior for o preço final pago pelos consumidores. No
fundo, há demasiada gente a ganhar com combustíveis caros — menos quem
trabalha, conduz e paga.
A discussão sobre taxar lucros excessivos das petrolíferas devia deixar
de ser tabu. Se empresas acumulam ganhos extraordinários graças a uma crise internacional
e à especulação em torno da guerra, então esses lucros extraordinários devem
ser alvo de intervenção pública. Não para punir o sucesso empresarial, mas para
impedir que tragédias globais sejam convertidas em jackpots privados.
Porque há algo profundamente errado num mundo em que uma guerra no Irão
significa sofrimento para milhões e, simultaneamente, celebração silenciosa nas
sedes das petrolíferas.
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