quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

 

        A justiça portuguesa e a erosão da confiança pública - a vergonha da Operação Marquês

A justiça é o último reduto de confiança dos cidadãos num Estado de direito. Quando falha — ou quando aparenta falhar — não é apenas um processo que se arrasta: é a própria credibilidade das instituições que se corrói. Em Portugal, poucos casos simbolizam tão bem essa erosão como o processo que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates, no âmbito da chamada Operação Marquês.

Durante anos, os portugueses ouviram promessas de rigor, combate à corrupção e responsabilização exemplar. O processo foi apresentado como um marco histórico no enfrentamento da criminalidade económico-financeira ao mais alto nível. Contudo, mais de uma década depois do início da investigação, o país continua à espera de uma decisão definitiva. Este arrastar interminável não é apenas um problema técnico — é um problema moral e político.

A vergonha de um processo interminável

A Operação Marquês tornou-se sinónimo de atraso, nulidades, recursos sucessivos, incidentes processuais e estratégias jurídicas sofisticadas que têm permitido adiar sucessivamente o desfecho do caso. Não está aqui em causa o direito de defesa — que é sagrado num Estado democrático — mas sim a utilização sistemática de expedientes legais que transformam o processo numa maratona sem fim.

O próprio funcionamento do sistema revelou fragilidades profundas: divergências entre magistrados, decisões instrutórias polémicas, acusações parcialmente anuladas e sucessivos reenvios processuais. A atuação do Ministério Público foi alvo de críticas pela dimensão e complexidade da acusação. Por outro lado, decisões do Tribunal Central de Instrução Criminal, geraram forte controvérsia pública e jurídica.

O resultado? Um processo fragmentado, um país dividido e uma sensação coletiva de impunidade.

Garantias ou excessos?

As garantias de defesa são uma conquista civilizacional. Ninguém sério defende julgamentos sumários ou a erosão de direitos fundamentais. O problema surge quando o sistema permite que essas garantias se transformem em instrumentos de bloqueio quase ilimitado.

Recursos sobre recursos. Incidentes processuais sucessivos. Prazos que se multiplicam. Prescrições que se aproximam como uma sombra constante. Para o cidadão comum, que vê pequenas causas decididas rapidamente quando lhe dizem respeito, o contraste é brutal. Cria-se a perceção — justa ou não — de que há uma justiça para os poderosos e outra para os restantes.

Quando processos de grande complexidade demoram tantos anos que a memória pública se dissipa, a justiça perde o seu efeito pedagógico e dissuasor. Uma sentença tardia é, muitas vezes, uma justiça incompleta.

A necessidade urgente de reformar a lei

É inevitável enfrentar uma questão estrutural: o modelo processual português precisa de ser reformado para garantir maior celeridade, especialmente em crimes económico-financeiros de grande dimensão.

Algumas mudanças que deveriam estar em cima da mesa:

1.   Limitação efetiva de recursos dilatórios, sem comprometer direitos fundamentais.

2.   Prazos processuais mais rígidos e consequências claras para incumprimentos.

3.   Especialização reforçada de magistrados e tribunais para lidar com criminalidade complexa.

4.   Simplificação do Código de Processo Penal, hoje excessivamente permeável a manobras dilatórias.

 

Não se trata de enfraquecer o Estado de direito. Pelo contrário: trata-se de o fortalecer. Um sistema que permite que um processo desta magnitude se prolongue indefinidamente transmite a ideia de fragilidade institucional.

Justiça que tarda… falha

Independentemente do desfecho final, o dano reputacional já está feito. O caso tornou-se um símbolo da incapacidade do sistema em produzir decisões em tempo útil. E quando a justiça tarda demasiado, o risco não é apenas a impunidade jurídica — é a normalização da desconfiança democrática.

Portugal precisa de uma justiça firme, célere e eficaz. Precisa de leis que protejam os direitos dos arguidos, sim — mas que também garantam que o interesse público não é eternamente adiado. Precisa, acima de tudo, de restaurar a confiança dos cidadãos.

Sem isso, cada novo grande processo será recebido não com esperança de justiça, mas com um encolher de ombros cínico.

E esse talvez seja o maior fracasso de todos.

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