Novos Comentadores Televisivos - a estirpe
provinciana e bacoca
Há muito que o espaço mediático
português se habituou à figura do “comentador
residente ou convidado”. Presente em painéis, debates e programas de
atualidade, este perfil tornou-se peça central na forma como a informação é
interpretada e entregue ao público. No entanto, importa questionar: quem são
estas vozes e que valor acrescentam realmente ao debate público?
A perceção, cada vez mais
difundida, é a de que apenas uma minoria — talvez entre 10% a 15% — possui
experiência sólida e conhecimento aprofundado sobre os temas que aborda. São
profissionais com percurso reconhecido, que trazem contexto, memória e capacidade
crítica. A sua intervenção, mesmo quando discordante, tende a elevar o nível da
discussão e a oferecer ao espectador ferramentas para compreender melhor a
realidade.
Por outro lado, cresce o número de
comentadores cuja presença parece assentar mais na imagem do que na substância.
Rapariguitas e rapazotes imberbes, recém saídos da Escola, surgem a opinar
sobre temas complexos — da geopolítica à economia — com uma segurança que nem
sempre corresponde ao domínio efetivo das matérias. A preparação, muitas vezes,
limita-se a leituras rápidas no Google, no Economist, Newsweek ou Times,
pesquisas superficiais e referências a publicações internacionais, usadas mais
como ornamento do que como base analítica.
Em Portugal assume contornos
particulares devido à reduzida dimensão do mercado mediático e à proximidade
entre comentadores, jornalistas e estruturas de poder. A lógica da televisão —
imediatista, orientada para audiências e dependente de rostos reconhecíveis —
favorece perfis que garantem fluidez discursiva e presença mediática, ainda que
à custa de profundidade.
O resultado é um empobrecimento do
debate público. Quando a opinião se sobrepõe sistematicamente ao conhecimento,
e quando a confiança é construída mais pela exposição do que pela competência,
perde-se uma oportunidade essencial: a de informar com rigor e contribuir para
uma cidadania mais esclarecida.
A renovação deve ser acompanhada
de exigência, responsabilidade e, sobretudo, de consciência dos próprios
limites. Opinar não é apenas falar — é sustentar, contextualizar e assumir o
peso das palavras num espaço público.
As televisões têm aqui um papel
decisivo. Ao escolherem quem comenta e como comenta, definem não só o tom do
debate, mas também o nível de exigência a que o público é exposto. Apostar na
diversidade de perspetivas é importante, mas essa diversidade deve incluir,
acima de tudo, qualidade.
Num tempo em que a informação circula rapidamente e a
desinformação ganha terreno, a credibilidade não é um luxo — é uma necessidade.
E essa começa, inevitavelmente, por quem tem voz.
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