O MEU 25 DE ABRIL DE 1974
Era uma quinta-feira igual a tantas outras (pensava eu).
Tinha aulas às 8h – Contabilidade de 2h.
Acordei ao som do rádio (hábito que ainda hoje preservo) e de facto, a
música que ouvi no então RCP – Rádio Clube Português, não era aquela música que
estava habituado a ouvir ao despertar. Era uma música de um som (que à época),
não era o meu. Mas nada me fez desconfiar.
Sei que tomei o pequeno-almoço á pressa (como sempre acontecia, para as
aulas ás 8h da manhã) e segui para a Escola.
Ao chegar á Escola, o ambiente estava perfeitamente normal. Como era uma
aula de 2h, tínhamos um intervalo de 10 minutos às 9h e aí sim, quando caímos
já havia uns murmúrios que qualquer “coisa” de extraordinário se estava a
passar, mas a campainha tocou e voltámos todos á sala para mais uma hora de
Contabilidade.
Quando saímos às 10h, aí sim, já havia conversas mais substantivas de que
um golpe militar tinha acontecido. Já não houve mais aulas e a parte da manhã
(até á hora do almoço) foi passada toda na Escola com todos os colegas a
tentarmos saber o que realmente tinha acontecido.
Tínhamos a sorte da Escola ter um padre extremamente esclarecido, com uma
excelente relação com os alunos e que nos ia pondo ao corrente do que se estava
a passar.
Entre nós, havia um colega (que hoje e infelizmente já não está entre nós),
que para a época e idade, era muito esclarecido politicamente e que ia
avaliando com a família os acontecimentos e que ao mesmo tempo nos ia
esclarecendo.
Para todos nós, o pensamento era só um – a guerra vai acabar e nós já não
teremos de ir para África !
Mas a ideia de ir combater para África, era uma ideia que bem metade de nós
nunca tinha passado pela cabeça, porque se chegasse esse momento, a maior parte
de nós já sabia o que iria fazer – exilar-se em França (a maior parte) e alguns
para Inglaterra.
Já não houve mais aulas não só nessa quinta-feira, mas o resto da semana. A
Escola dispensou alunos e professores.
A parte da tarde e noite, foi passada com os ouvidos nos rádios, a perceber
o que tinha acontecido. Ainda estava presente o fracasso do golpe das Caldas da
Rainha, e temíamos que este pudesse redundar no mesmo. Mas para alegria e
regozijo de todos, não foi esse o caso.
Na sexta-feira e nesse fim-de-semana, em toda a cidade era um mar de
contentamento e alegria, por (finalmente) o regime ter caído e trazer novas
esperanças e ilusões para todos, particularmente para nós jovens, ao dar-nos
uma abertura que não sonhávamos naquela manhã de quinta-feira.
Foi um dia, que ainda hoje e passados 52 anos sobre o mesmo, me recordo
perfeitamente. Dos locais e dos amigos desse dia; por onde andámos, o que ouvimos,
o que pensámos, os projectos que sonhámos para o nosso futuro e sobretudo não
termos que ser confrontados com a hipótese (para muitos de nós completamente
improvável) de irmos para África.
Sinto que fiz parte da História deste Portugal de hoje !
Vivi o dia que muitos que irão ler este meu “post” não viveram, e para mim ter vivido esse dia, foi um
privilégio que guardarei até á hora que partir !
Vivi esse dia com a maior intensidade que se possa imaginar, acreditando
que ele me iria abrir portas, para que no futuro me pudesse exprimir e
manifestar de forma livre, mas com responsabilidade e sentido de cidadania.
Quero deixar aqui a minha homenagem a duas pessoas que marcaram muito o
nosso caminho (meu e dos meus colegas) da época – ao Padre Alves Dias e ao
nosso Director Dr. Leonel Pimentel.
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