sexta-feira, 27 de março de 2026

 

                   A praga dos Generais-comentadores.

         Generais a mais para um país em paz.

Nos últimos tempos, tornou-se quase impossível ligar a televisão sem assistir ao desfile de generais — na sua maioria já na reforma — a comentarem os conflitos internacionais, em particular a guerra entre a Rússia e a Ucrânia ou as tensões com o Irão. A presença constante destas figuras levanta uma questão incómoda, mas necessária: quantos generais precisa realmente um país como Portugal?

Um General de Brigada, o escalão mais baixo da classe de oficiais-generais, tem como função comandar uma brigada, normalmente composta por três a cinco mil militares. Ora, considerando que as Forças Armadas portuguesas contam com cerca de 24 mil efetivos, uma simples conta de proporcionalidade sugere que um número muito reduzido de generais seria suficiente para garantir a estrutura de comando. Ainda assim, o número de oficiais-generais — no ativo e na reserva — parece largamente superior ao necessário.

Este aparente excesso torna-se ainda mais evidente quando se observa o protagonismo mediático de muitos destes militares. A sua participação no debate público é legítima e, em muitos casos, útil. No entanto, a frequência com que surgem levanta dúvidas sobre se estamos perante uma elite sobredimensionada, que encontra nos meios de comunicação uma forma de prolongar a sua relevância após a carreira ativa.

Mas a questão não se esgota nos generais. Se descermos na hierarquia militar para o universo dos oficiais, o problema adquire outra dimensão. Muitos desempenham funções administrativas, afastadas da realidade operacional que justificaria a sua formação e estatuto. Em vez de liderarem tropas no terreno, acabam por ocupar cargos burocráticos, frequentemente indistinguíveis de funções civis, mas com custos significativamente mais elevados para o erário público.

Portugal não está em guerra, nem enfrenta ameaças militares diretas que justifiquem uma estrutura pesada e hierarquicamente inflacionada. Num contexto de paz e de recursos limitados, torna-se legítimo questionar a eficiência do modelo atual. Será que estamos a investir na defesa nacional de forma estratégica, ou apenas a sustentar uma máquina institucional desajustada da realidade?

A discussão não deve ser simplista nem populista. As Forças Armadas desempenham um papel essencial, não só na defesa, mas também em missões de proteção civil, cooperação internacional e apoio em situações de emergência. Contudo, isso não invalida a necessidade de uma reflexão séria sobre a sua organização interna.

Num país onde frequentemente se exigem sacrifícios aos contribuintes, a transparência e a racionalidade na gestão dos recursos públicos são imperativas. E isso inclui, inevitavelmente, perguntar: quantos generais são necessários?

A verdadeira questão é incómoda, mas inevitável: estamos a investir na defesa nacional — ou apenas a sustentar uma estrutura que se perpetua a si própria?

 

 

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