DIA DE EXAME:
Quem
nasceu nas décadas de 50 e 60: uma geração marcada pela simplicidade e pelo
respeitoAs pessoas que nasceram nas décadas de 1950 e 1960 cresceram num mundo
muito diferente daquele que conhecemos hoje. Não existiam telemóveis, internet
nem redes sociais. A vida era mais simples, as famílias conviviam mais e os
jovens passavam grande parte do tempo ao ar livre. Na minha opinião, esta
geração aprendeu valores que continuam a ser importantes, como o respeito, a
responsabilidade e a solidariedade.
Na infância, as brincadeiras aconteciam nas ruas, nos campos ou nos
pátios das escolas. As crianças jogavam à bola, andavam de bicicleta, saltavam
à corda e inventavam jogos com poucos recursos. Como não havia tecnologia para
ocupar o tempo, o convívio era mais direto e as amizades eram construídas
através da convivência diária.
Muitos jovens começaram a trabalhar cedo para ajudar as famílias e
aprenderam rapidamente o valor do esforço. Os pais e os professores eram
figuras de autoridade muito respeitadas, e a educação era mais rigorosa. Embora
existissem menos oportunidades de estudo do que hoje, havia um forte sentido de
responsabilidade e de compromisso.
Os conflitos entre os jovens também existiam, mas eram geralmente
resolvidos de forma diferente. Quando surgiam discussões, era comum conversar
frente a frente, pedir desculpa ou fazer as pazes depois de algum tempo.
Em alguns casos havia lutas ou desentendimentos, mas esses conflitos
terminavam normalmente no momento e não continuavam através das redes sociais,
como acontece atualmente. Além disso, os familiares, os professores ou até os
vizinhos intervinham para ajudar a resolver os problemas e incentivar a
reconciliação.
É claro que nem tudo era melhor. Muitas famílias enfrentavam dificuldades
económicas, havia menos acesso à educação e aos cuidados de saúde, e alguns
jovens tinham de abandonar a escola para trabalhar. No entanto, havia um maior
contacto entre as pessoas, mais tempo para conversar e um forte espírito de
comunidade.
Em conclusão, quem nasceu nas décadas de 50 e 60 viveu uma época de
grandes mudanças e ajudou a construir a sociedade atual. Apesar das
dificuldades, esta geração demonstrou capacidade de adaptação e deixou um
importante legado de trabalho, respeito e união. Penso que os jovens de hoje
podem aprender com essa geração que muitos conflitos se resolvem melhor através
do diálogo, da compreensão e do respeito mútuo do que pela agressividade ou
pela exposição nas redes sociais.
Mariano
Rajoy : Não havia necessidade!
O futebol desperta paixões, alimenta
rivalidades e mobiliza milhões de pessoas. Mas precisamente por essa capacidade
de influenciar emoções, exige prudência quando é comentado por figuras
políticas de grande relevo. As recentes declarações de Mariano Rajoy sobre os
jogadores da seleção francesa levantam uma questão que vai muito além do
desporto: até que ponto deve um antigo primeiro-ministro envolver-se em
polémicas desta natureza?
Um político que exerceu o cargo de chefe de
Governo representa uma instituição e uma tradição democrática que não
desaparecem quando abandona funções. As suas palavras continuam a ter peso e
impacto público. Por isso, quando entra num terreno tão sensível como o futebol
internacional, sobretudo fazendo referências aos jogadores de uma seleção
nacional, corre o risco de alimentar divisões desnecessárias e de desviar o
debate dos verdadeiros problemas da sociedade.
O futebol já vive, por si só, num ambiente
frequentemente marcado por interesses económicos, rivalidades exacerbadas e
polémicas permanentes. Não necessita da intervenção de antigos líderes
políticos para aumentar a tensão. Pelo contrário, espera-se que personalidades
com a experiência de Mariano Rajoy contribuam para elevar o debate público, e
não para alimentar discussões que facilmente podem ser interpretadas como
nacionalistas ou até xenófobas.
Mesmo que não tenha sido essa a intenção,
declarações deste género expõem quem as profere a críticas evitáveis. Num
contexto europeu que valoriza a diversidade e a integração, qualquer comentário
sobre a origem ou identidade dos jogadores de uma seleção pode ser entendido
como uma tentativa de colocar em causa a legitimidade de atletas que
representam o seu país de acordo com as regras e os valores do desporto.
Além disso, intervenções deste tipo acabam
por descredibilizar a própria classe política. Os cidadãos esperam dos seus
antigos governantes reflexões sobre economia, democracia, segurança ou política
internacional, e não opiniões que alimentem polémicas futebolísticas. Quando um
ex-primeiro-ministro escolhe esse caminho, arrisca-se a banalizar o prestígio
do cargo que ocupou e a contribuir para a crescente desconfiança dos cidadãos
em relação à política.
O
futebol deve continuar a ser um espaço de competição, respeito e celebração do
talento, independentemente da origem dos jogadores. Aos políticos,
especialmente aos que exerceram as mais altas funções do Estado, exige-se
sentido de responsabilidade, ponderação e consciência do impacto das suas
palavras. Há debates que enriquecem a democracia; este dificilmente será um
deles.
A FIFA ajoelha-se ao poder
político: o dia em que a credibilidade do futebol ficou em jogoO futebol vive da sua credibilidade. Sem regras iguais para todos, sem
árbitros independentes e sem organismos disciplinares imunes a pressões
externas, deixa de ser um desporto para passar a ser um espetáculo manipulado
pelos interesses dos mais poderosos. A
decisão da FIFA de suspender a sanção aplicada ao internacional norte-americano
Folarin Balogun, precisamente após uma intervenção direta do Presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, junto de Gianni Infantino, representa um dos
episódios mais graves da história recente do futebol mundial. Durante décadas, a FIFA
repetiu um princípio quase sagrado: "nenhuma
interferência política no futebol". Esse argumento foi utilizado para
suspender federações nacionais, impedir governos de intervirem nas suas
associações e até excluir países de competições internacionais. Agora, afinal,
descobre-se que esse princípio parece ter uma exceção: quando a chamada vem da
Casa Branca. A questão nem sequer é
saber se Balogun merecia ou não cumprir o castigo. Os lances polémicos fazem
parte do futebol. O problema reside no facto de milhões de adeptos terem
assistido à transformação de um processo disciplinar numa decisão política. Que
mensagem recebe o mundo? Que um jogador
comum cumpre a suspensão. Mas um jogador da seleção anfitriã pode beneficiar de
uma chamada telefónica do Presidente do país.
Se isto não constitui um precedente perigosíssimo, então é difícil
imaginar o que será. A FIFA passa décadas a proclamar independência,
imparcialidade e igualdade entre as federações. Contudo, bastou uma intervenção
política de alto nível para alterar uma decisão que, em circunstâncias normais,
seria automática.
A consequência é devastadora.
Como poderá a FIFA voltar a exigir autonomia às federações africanas,
asiáticas ou sul-americanas quando ela própria se mostra vulnerável à pressão
política da maior potência mundial?
Como poderá voltar a punir governos por interferência quando aceita que
um chefe de Estado influencie um processo disciplinar em pleno Campeonato do
Mundo?
Este caso destrói um dos pilares da legitimidade institucional da
organização. Ainda mais preocupante é o simbolismo.
O Mundial de 2026 realiza-se em território norte-americano. A seleção
dos Estados Unidos disputa uma fase decisiva da competição. O presidente do
país intervém diretamente. A FIFA altera a decisão. Mesmo que juridicamente
encontre fundamento para justificar a medida, politicamente a perceção está
criada: o poder falou mais alto do que o regulamento.
E no desporto, a perceção vale quase tanto como os factos. Os
adversários dos Estados Unidos têm hoje razões legítimas para questionar se
competem em igualdade de circunstâncias. Os adeptos perguntam-se se todos os
jogadores são tratados da mesma forma. E o mundo percebe que a influência
política pode, afinal, chegar onde sempre se disse que nunca chegaria: ao
coração da justiça desportiva.
Gianni Infantino sai profundamente fragilizado.
Um presidente da FIFA deve proteger a instituição das pressões
políticas, não dar a imagem de lhes abrir a porta. Se a organização quiser
preservar a pouca autoridade moral que ainda lhe resta, terá de explicar, de
forma transparente e convincente, porque motivo esta decisão foi excecional e
por que razão não representa um privilégio concedido ao país organizador.
Caso contrário, ficará para a história a ideia de que, no Mundial de
2026, houve equipas que jogaram apenas contra onze adversários e outras que
tiveram de enfrentar também o peso da política.
E, quando isso acontece, quem perde nunca é apenas um adversário.
Quem perde é o próprio futebol.
QUANDO A JUSTIÇA DEIXA DE PARECER JUSTIÇA
O caso
BES/Salgado
A decisão do Tribunal Central Criminal de
Lisboa de suspender a execução da pena de 13 anos de prisão aplicada a Ricardo Salgado,
com fundamento no seu estado de saúde, voltou a abrir uma ferida que nunca
cicatrizou na sociedade portuguesa. Não surpreende, por isso, que cerca de 70%
dos portugueses considerem que esta decisão prejudica a imagem da Justiça. O
espanto seria precisamente o contrário.
Ninguém nega que a doença de Alzheimer seja
grave e mereça respeito. A dignidade humana deve ser preservada em qualquer
circunstância. Mas há uma pergunta que continua sem resposta: onde esteve a
preocupação com a dignidade dos milhares de lesados que perderam as poupanças
de uma vida? Quem olha pelos reformados, pelas famílias e pelos pequenos
investidores que confiaram nas instituições financeiras e viram o seu
património desaparecer? Muitos perderam muito mais do que dinheiro. Perderam
projetos de vida, estabilidade emocional, saúde e confiança no Estado.
Para essas pessoas, não houve suspensão do
sofrimento. Não houve atestado médico que lhes devolvesse as economias
perdidas, nem decisão judicial que apagasse anos de angústia, depressão e
dificuldades económicas. Muitos morreram sem recuperar um único euro. Outros
continuam, ainda hoje, a pagar as consequências de decisões pelas quais nunca
tiveram qualquer responsabilidade.
É precisamente por isso que esta decisão é
tão difícil de aceitar. A Justiça deve ser imparcial, mas também deve
transmitir um sentido de responsabilidade e de reparação moral. Quando um
cidadão comum comete um crime, dificilmente encontra mecanismos que lhe
permitam escapar ao cumprimento da pena.
Quando se trata de figuras poderosas, porém,
a sucessão de recursos, adiamentos e circunstâncias excecionais acaba
demasiadas vezes por impedir que a condenação tenha consequências efetivas.
A lentidão da Justiça portuguesa também não
pode ser ignorada. Se processos desta dimensão fossem julgados em tempo útil,
talvez a execução das penas não esbarrasse em problemas decorrentes da idade ou
da saúde dos condenados. A demora transforma-se, na prática, num benefício para
quem dispõe de recursos para prolongar os processos durante anos, ou mesmo
décadas.
Salgado foi considerado culpado e condenado a
uma pena pesada. Essa condenação representava, para muitos portugueses, um
sinal de que ninguém estaria acima da lei. Ao ser suspensa a sua execução, esse
sinal perde força. A mensagem que fica é a de que o sistema consegue condenar,
mas nem sempre consegue fazer cumprir as suas próprias decisões.
É evidente que a doença merece consideração e
que o Estado de direito impõe limites à execução das penas. Mas também é
legítimo perguntar se a justiça feita apenas ao condenado pode ser considerada
justiça plena, quando milhares de vítimas continuam sem qualquer sentimento de
reparação. O sofrimento dos lesados também deveria pesar na consciência
coletiva e nas decisões que moldam a confiança nas instituições.
Talvez o cumprimento efetivo da pena nunca
devolvesse o dinheiro perdido às vítimas. Talvez não apagasse anos de desespero
nem reconstruísse vidas destruídas. Mas representaria algo igualmente
importante: a afirmação inequívoca de que, em Portugal, quem causa prejuízos
devastadores à vida de milhares de pessoas responde pelos seus atos até ao fim.
Para os lesados, seria um raro sinal de que o Estado não esqueceu o seu sofrimento.
Para a sociedade, seria uma demonstração de que a Justiça não distingue entre
os poderosos e os restantes cidadãos.
Enquanto
essa perceção não existir, continuará a instalar-se a ideia de que há crimes
cujas vítimas carregam a pena para toda a vida, enquanto os seus responsáveis
conseguem, por diferentes circunstâncias, escapar ao peso das consequências. E
essa é uma realidade que corrói a confiança dos portugueses muito mais
profundamente do que qualquer sondagem consegue medir.
A quem serve esta Greve Geral
?
A greve geral convocada para 3 de Junho
levanta uma questão que raramente é discutida com frontalidade: quem são,
afinal, os trabalhadores que mais aderem a este tipo de protesto e quem são
aqueles que, teoricamente, mais teriam a ganhar com as reivindicações
apresentadas?
Observando a realidade portuguesa,
verifica-se que a maior capacidade de mobilização sindical continua a encontrar-se
no sector público, seja no sector público administrativo, seja no sector
empresarial do Estado. São trabalhadores que, em regra, beneficiam de níveis de
estabilidade laboral superiores aos existentes no sector privado, estando menos
expostos a fenómenos como despedimentos, “outsourcing”,
precariedade contratual ou banco de horas.
Por outro lado, muitas das alterações à
legislação laboral que têm suscitado controvérsia ao longo dos últimos tempos,
afectam sobretudo os trabalhadores do sector privado. São estes que enfrentam,
com maior frequência, a pressão da concorrência, a flexibilidade laboral e a
incerteza quanto à manutenção do emprego. No entanto, paradoxalmente, são
também estes trabalhadores que tendem a aderir menos às greves gerais.
Esta realidade cria um aparente desfasamento
entre os protagonistas da contestação e aqueles que constituem o principal alvo
das medidas contestadas. A greve geral acaba, assim, por assumir uma dimensão
predominantemente política, mais do que estritamente laboral.
O principal impulsionador desta paralisação
continua a ser a CGTP, organização historicamente próxima do Partido Comunista
Português. Num momento em que o PCP enfrenta uma progressiva perda de
influência eleitoral e parlamentar, a greve surge como uma oportunidade para
mostrar que ainda existe capacidade de mobilização nas ruas e nos locais de
trabalho.
Neste contexto, é legítimo questionar se a
convocação da greve responde efectivamente às preocupações concretas da maioria
dos trabalhadores portugueses ou se representa, acima de tudo, uma demonstração
de força das estruturas sindicais e políticas que a promovem. Os seus
defensores argumentarão que a solidariedade entre trabalhadores justifica a
mobilização colectiva.
Os críticos, pelo contrário, verão nesta
greve uma iniciativa de natureza essencialmente política, destinada a manter a
relevância pública de determinadas organizações sindicais e partidárias,
particularmente uma prova de vida do Partido Comunista, que não passa de um
partido residual na Assembleia da República.
Independentemente
da posição adoptada, a greve de 3 de Junho evidencia uma contradição que merece
reflexão: aqueles que mais sofrem os efeitos das mudanças no mercado de
trabalho são, frequentemente, os que menos participam nos instrumentos
tradicionais de contestação laboral.
A questão que fica é simples: estamos perante uma greve
dos trabalhadores portugueses ou perante uma manifestação política promovida
por estruturas que procuram provar que ainda mantêm relevância pública?
A VERTIGEM DO CRESCIMENTO DO CRÉDITO MALPARADO
(um aviso á “navegação”)
Nos
últimos anos, Portugal assistiu a um crescimento significativo do crédito às famílias,
tanto no crédito ao consumo como no crédito hipotecário.
A subida
acentuada das taxas de juro, combinada com uma inflação persistente e a perda
de poder de compra, está a criar um ambiente de forte pressão financeira sobre
milhares de famílias.
O crédito à habitação foi, durante anos, visto como relativamente
seguro, sobretudo devido às prestações reduzidas proporcionadas pela Euribor
negativa. Muitas famílias assumiram compromissos financeiros elevados,
acreditando que o contexto de juros baixos se manteria durante muito tempo.
Contudo, a rápida inversão da política monetária do Banco Central Europeu
alterou drasticamente a realidade. Em muitos casos, as prestações mensais
aumentaram centenas de euros em poucos meses, colocando pressão sobre orçamentos
familiares já fragilizados pelo aumento do custo de vida.
Paralelamente, o crédito ao consumo também registou um crescimento
expressivo. Cartões de crédito, créditos pessoais e financiamentos automóveis
continuaram a expandir-se, muitas vezes como forma de compensar a perda de
rendimento disponível. Esta dependência crescente do crédito para suportar
despesas correntes é um sinal preocupante de fragilidade económica das
famílias.
Perante este contexto, é expectável um aumento significativo dos
incumprimentos já ao longo deste ano. As famílias mais expostas a taxas
variáveis serão as primeiras a sentir dificuldades, mas o problema poderá
rapidamente alastrar a outros segmentos da população. A inflação continua
elevada em setores essenciais como alimentação, energia e habitação, reduzindo
drasticamente a capacidade das famílias para cumprir os seus compromissos
financeiros.
A banca portuguesa enfrenta agora um novo teste à sua resiliência.
Depois de anos de recuperação e reforço dos rácios de capital, os bancos poderão ser obrigados a aumentar
substancialmente as provisões para crédito malparado. O risco de imparidades
cresce à medida que aumentam os sinais de deterioração financeira dos clientes
particulares. Ainda que o sistema bancário esteja hoje mais sólido do que
na crise financeira anterior, a dimensão potencial do problema não deve ser
subestimada.
Nem
mesmo as medidas recentemente anunciadas para apoiar os jovens na compra de
habitação, incluindo linhas de crédito bonificadas e garantias do Estado,
estarão imunes ao actual contexto económico. Embora estas
iniciativas possam facilitar o acesso à habitação numa fase inicial, não
eliminam o risco associado à subida das taxas de juro e à degradação das
condições económicas. Muitos jovens
poderão acabar por assumir encargos demasiado elevados face aos seus
rendimentos futuros, especialmente num mercado de trabalho ainda marcado pela
precariedade e salários relativamente baixos.
Os próximos meses serão decisivos para perceber até que ponto o
sistema financeiro conseguirá absorver o impacto deste novo ciclo económico. O aumento dos incumprimentos poderá
provocar uma nova vaga de crédito malparado, obrigando os bancos a reconhecer
imparidades relevantes e a adotar critérios de concessão de crédito mais restritivos.
Isso poderá, por sua vez, travar o consumo e o investimento, agravando o
abrandamento económico.
Portugal entra assim numa fase particularmente delicada. O fim do dinheiro barato expôs vulnerabilidades acumuladas ao longo dos últimos anos. Famílias endividadas, inflacção persistente e juros elevados formam uma combinação perigosa que poderá marcar profundamente a economia nacional nos próximos tempos. O desafio será encontrar um equilíbrio entre a necessidade de controlar a inflacção e a protecção das famílias mais vulneráveis, evitando que a crise financeira se transforme numa crise social de maior dimensão.
Quando a guerra dá lucro: o escândalo das
gasolineiras
Há uma regra não escrita no mercado dos combustíveis: sempre que rebenta
uma guerra no Médio Oriente, os consumidores sabem o que vem a seguir. Primeiro
surgem as imagens de mísseis, explosões e navios militares no Golfo Pérsico.
Depois aparecem os “receios dos mercados”.
E, poucos dias depois, chegam os aumentos na bomba de gasolina.
O conflito envolvendo o Irão voltou a mostrar a rapidez com que as
gasolineiras transformam tensão geopolítica em margens milionárias. O barril de
petróleo sobe nos mercados internacionais e, quase por magia, o preço dos
combustíveis dispara imediatamente. Mas quando o petróleo desce? Aí a pressa
desaparece. As descidas chegam lentamente, aos poucos, como se houvesse sempre
uma desculpa técnica para adiar o alívio aos consumidores.
No meio desta lógica perversa, há vencedores claros: as grandes
petrolíferas. Enquanto famílias fazem contas para conseguir encher o depósito e
empresas enfrentam custos de transporte cada vez mais elevados, os gigantes da
energia anunciam lucros recorde. A guerra torna-se oportunidade de negócio. O
medo transforma-se em dividendos.
O mais revoltante é a normalização deste mecanismo. Já quase ninguém
estranha que empresas energéticas apresentem resultados históricos precisamente
em períodos de crise internacional. Fala-se de “mercado”, de “instabilidade”,
de “ajustamento de preços”, como se
tudo fosse inevitável.
Mas não é inevitável que uma crise internacional sirva de justificação
para lucros tão elevados à custa de milhões de consumidores sem alternativa.
As gasolineiras gostam de repetir que os preços dependem apenas do
mercado internacional. É meia verdade. Dependem também das margens que decidem
aplicar, da especulação financeira e da forma como aproveitam o clima de
incerteza para maximizar receitas. E quando existe pouca concorrência real no
sector, o consumidor fica encurralado: paga mais ou deixa o carro parado.
A ironia é cruel. Uma guerra que destrói vidas, cidades e economias
transforma-se, ao mesmo tempo, numa fonte extraordinária de rentabilidade para
multinacionais energéticas. Enquanto civis vivem sob bombas, acionistas recebem
dividendos históricos. É difícil imaginar retrato mais brutal de um sistema
económico que consegue lucrar até com o caos.
Também os governos têm responsabilidade nesta realidade. Muitos mostram
indignação pública perante o aumento dos combustíveis, mas continuam
dependentes das receitas fiscais geradas por esses mesmos aumentos. O Estado
arrecada mais IVA quanto maior for o preço final pago pelos consumidores. No
fundo, há demasiada gente a ganhar com combustíveis caros — menos quem
trabalha, conduz e paga.
A discussão sobre taxar lucros excessivos das petrolíferas devia deixar
de ser tabu. Se empresas acumulam ganhos extraordinários graças a uma crise internacional
e à especulação em torno da guerra, então esses lucros extraordinários devem
ser alvo de intervenção pública. Não para punir o sucesso empresarial, mas para
impedir que tragédias globais sejam convertidas em jackpots privados.
Porque há algo profundamente errado num mundo em que uma guerra no Irão
significa sofrimento para milhões e, simultaneamente, celebração silenciosa nas
sedes das petrolíferas.
A
DIMINUIÇÃO DA IDADE DA REFORMA –
IDEIA PATÉTICA, POPULISTA E IRRESPONSÁVEL
A
discussão sobre a idade da reforma é um daqueles temas onde a emoção facilmente
se sobrepõe à razão — e é precisamente aí que o populismo patético e imbecil,
encontra terreno fértil.
Defender
a redução da idade da reforma pode soar apelativo. Afinal, quem não gostaria de
trabalhar menos anos e usufruir mais cedo de um descanso merecido? O problema é
que esta ideia, apesar de sedutora, ignora completamente a realidade
demográfica e económica.
Vivemos
mais anos do que nunca. A esperança média de vida aumentou significativamente
nas últimas décadas, enquanto a taxa de natalidade diminuiu. Isto significa que
há cada vez menos trabalhadores ativos a sustentar um número crescente de
pensionistas. O sistema de pensões, baseado na solidariedade intergeracional,
fica assim sob enorme pressão.
Neste
contexto, baixar a idade da reforma não é apenas irresponsável — é
potencialmente destrutivo para o próprio sistema. Se hoje já se antecipa que
muitas reformas futuras serão mais baixas devido ao desequilíbrio entre
contribuições e pagamentos, reduzir ainda mais o tempo de contribuição só
agravaria o problema. Menos anos a descontar e mais anos a receber pensão é uma
equação que simplesmente não quadra!
Os
discursos populistas e patéticos ignoram estes factos. Prometem soluções fáceis
para problemas complexos, dizendo exatamente aquilo que as pessoas querem
ouvir, sem apresentar sustentabilidade a longo prazo. É uma estratégia economicamente
perigosa.
A
realidade é dura, mas inevitável: para garantir que o sistema de pensões
continue a existir, será necessário ajustá-lo às novas condições demográficas.
Isso pode passar por aumentar — ou pelo menos manter — a idade da reforma,
incentivar carreiras contributivas mais longas e promover políticas que
reforcem a base de contribuintes.
Dizer
o contrário pode render aplausos imediatos, mas compromete o futuro. E quando
falamos de pensões, estamos a falar da segurança financeira de milhões de
pessoas. Isso exige responsabilidade, não ilusões.
Baixar
a idade da reforma hoje é passar uma factura gigantesca às gerações futuras. É
dizer-lhes: “vocês que resolvam”. É
uma forma elegante de irresponsabilidade.
A ideia de baixar a
idade da reforma não é apenas ingénua — é uma espécie de conto de fadas político
contado a adultos que deviam saber fazer contas.
O MEU 25 DE ABRIL DE 1974
Era uma quinta-feira igual a tantas outras (pensava eu).
Tinha aulas às 8h – Contabilidade de 2h.
Acordei ao som do rádio (hábito que ainda hoje preservo) e de facto, a
música que ouvi no então RCP – Rádio Clube Português, não era aquela música que
estava habituado a ouvir ao despertar. Era uma música de um som (que à época),
não era o meu. Mas nada me fez desconfiar.
Sei que tomei o pequeno-almoço á pressa (como sempre acontecia, para as
aulas ás 8h da manhã) e segui para a Escola.
Ao chegar á Escola, o ambiente estava perfeitamente normal. Como era uma
aula de 2h, tínhamos um intervalo de 10 minutos às 9h e aí sim, quando caímos
já havia uns murmúrios que qualquer “coisa” de extraordinário se estava a
passar, mas a campainha tocou e voltámos todos á sala para mais uma hora de
Contabilidade.
Quando saímos às 10h, aí sim, já havia conversas mais substantivas de que
um golpe militar tinha acontecido. Já não houve mais aulas e a parte da manhã
(até á hora do almoço) foi passada toda na Escola com todos os colegas a
tentarmos saber o que realmente tinha acontecido.
Tínhamos a sorte da Escola ter um padre extremamente esclarecido, com uma
excelente relação com os alunos e que nos ia pondo ao corrente do que se estava
a passar.
Entre nós, havia um colega (que hoje e infelizmente já não está entre nós),
que para a época e idade, era muito esclarecido politicamente e que ia
avaliando com a família os acontecimentos e que ao mesmo tempo nos ia
esclarecendo.
Para todos nós, o pensamento era só um – a guerra vai acabar e nós já não
teremos de ir para África !
Mas a ideia de ir combater para África, era uma ideia que bem metade de nós
nunca tinha passado pela cabeça, porque se chegasse esse momento, a maior parte
de nós já sabia o que iria fazer – exilar-se em França (a maior parte) e alguns
para Inglaterra.
Já não houve mais aulas não só nessa quinta-feira, mas o resto da semana. A
Escola dispensou alunos e professores.
A parte da tarde e noite, foi passada com os ouvidos nos rádios, a perceber
o que tinha acontecido. Ainda estava presente o fracasso do golpe das Caldas da
Rainha, e temíamos que este pudesse redundar no mesmo. Mas para alegria e
regozijo de todos, não foi esse o caso.
Na sexta-feira e nesse fim-de-semana, em toda a cidade era um mar de
contentamento e alegria, por (finalmente) o regime ter caído e trazer novas
esperanças e ilusões para todos, particularmente para nós jovens, ao dar-nos
uma abertura que não sonhávamos naquela manhã de quinta-feira.
Foi um dia, que ainda hoje e passados 52 anos sobre o mesmo, me recordo
perfeitamente. Dos locais e dos amigos desse dia; por onde andámos, o que ouvimos,
o que pensámos, os projectos que sonhámos para o nosso futuro e sobretudo não
termos que ser confrontados com a hipótese (para muitos de nós completamente
improvável) de irmos para África.
Sinto que fiz parte da História deste Portugal de hoje !
Vivi o dia que muitos que irão ler este meu “post” não viveram, e para mim ter vivido esse dia, foi um
privilégio que guardarei até á hora que partir !
Vivi esse dia com a maior intensidade que se possa imaginar, acreditando
que ele me iria abrir portas, para que no futuro me pudesse exprimir e
manifestar de forma livre, mas com responsabilidade e sentido de cidadania.
Quero deixar aqui a minha homenagem a duas pessoas que marcaram muito o
nosso caminho (meu e dos meus colegas) da época – ao Padre Alves Dias e ao
nosso Director Dr. Leonel Pimentel.
O MEU 25 DE ABRIL DE 1974
Era uma quinta-feira igual a tantas outras (pensava eu).
Tinha aulas às 8h – Contabilidade de 2h.
Acordei ao som do rádio (hábito que ainda hoje preservo) e de facto, a
música que ouvi no então RCP – Rádio Clube Português, não era aquela música que
estava habituado a ouvir ao despertar. Era uma música de um som (que à época),
não era o meu. Mas nada me fez desconfiar.
Sei que tomei o pequeno-almoço á pressa (como sempre acontecia, para as
aulas ás 8h da manhã) e segui para a Escola.
Ao chegar á Escola, o ambiente estava perfeitamente normal. Como era uma
aula de 2h, tínhamos um intervalo de 10 minutos às 9h e aí sim, quando caímos
já havia uns murmúrios que qualquer “coisa” de extraordinário se estava a
passar, mas a campainha tocou e voltámos todos á sala para mais uma hora de
Contabilidade.
Quando saímos às 10h, aí sim, já havia conversas mais substantivas de que
um golpe militar tinha acontecido. Já não houve mais aulas e a parte da manhã
(até á hora do almoço) foi passada toda na Escola com todos os colegas a
tentarmos saber o que realmente tinha acontecido.
Tínhamos a sorte da Escola ter um padre extremamente esclarecido, com uma
excelente relação com os alunos e que nos ia pondo ao corrente do que se estava
a passar.
Entre nós, havia um colega (que hoje e infelizmente já não está entre nós),
que para a época e idade, era muito esclarecido politicamente e que ia
avaliando com a família os acontecimentos e que ao mesmo tempo nos ia
esclarecendo.
Para todos nós, o pensamento era só um – a guerra vai acabar e nós já não
teremos de ir para África !
Mas a ideia de ir combater para África, era uma ideia que bem metade de nós
nunca tinha passado pela cabeça, porque se chegasse esse momento, a maior parte
de nós já sabia o que iria fazer – exilar-se em França (a maior parte) e alguns
para Inglaterra.
Já não houve mais aulas não só nessa quinta-feira, mas o resto da semana. A
Escola dispensou alunos e professores.
A parte da tarde e noite, foi passada com os ouvidos nos rádios, a perceber
o que tinha acontecido. Ainda estava presente o fracasso do golpe das Caldas da
Rainha, e temíamos que este pudesse redundar no mesmo. Mas para alegria e
regozijo de todos, não foi esse o caso.
Na sexta-feira e nesse fim-de-semana, em toda a cidade era um mar de
contentamento e alegria, por (finalmente) o regime ter caído e trazer novas
esperanças e ilusões para todos, particularmente para nós jovens, ao dar-nos
uma abertura que não sonhávamos naquela manhã de quinta-feira.
Foi um dia, que ainda hoje e passados 52 anos sobre o mesmo, me recordo
perfeitamente. Dos locais e dos amigos desse dia; por onde andámos, o que ouvimos,
o que pensámos, os projectos que sonhámos para o nosso futuro e sobretudo não
termos que ser confrontados com a hipótese (para muitos de nós completamente
improvável) de irmos para África.
Sinto que fiz parte da História deste Portugal de hoje !
Vivi o dia que muitos que irão ler este meu “post” não viveram, e para mim ter vivido esse dia, foi um
privilégio que guardarei até á hora que partir !
Vivi esse dia com a maior intensidade que se possa imaginar, acreditando
que ele me iria abrir portas, para que no futuro me pudesse exprimir e
manifestar de forma livre, mas com responsabilidade e sentido de cidadania.
Quero deixar aqui a minha homenagem a duas pessoas que marcaram muito o
nosso caminho (meu e dos meus colegas) da época – ao Padre Alves Dias e ao
nosso Director Dr. Leonel Pimentel.
Novos Comentadores Televisivos - a estirpe
provinciana e bacoca
Há muito que o espaço mediático
português se habituou à figura do “comentador
residente ou convidado”. Presente em painéis, debates e programas de
atualidade, este perfil tornou-se peça central na forma como a informação é
interpretada e entregue ao público. No entanto, importa questionar: quem são
estas vozes e que valor acrescentam realmente ao debate público?
A perceção, cada vez mais
difundida, é a de que apenas uma minoria — talvez entre 10% a 15% — possui
experiência sólida e conhecimento aprofundado sobre os temas que aborda. São
profissionais com percurso reconhecido, que trazem contexto, memória e capacidade
crítica. A sua intervenção, mesmo quando discordante, tende a elevar o nível da
discussão e a oferecer ao espectador ferramentas para compreender melhor a
realidade.
Por outro lado, cresce o número de
comentadores cuja presença parece assentar mais na imagem do que na substância.
Rapariguitas e rapazotes imberbes, recém saídos da Escola, surgem a opinar
sobre temas complexos — da geopolítica à economia — com uma segurança que nem
sempre corresponde ao domínio efetivo das matérias. A preparação, muitas vezes,
limita-se a leituras rápidas no Google, no Economist, Newsweek ou Times,
pesquisas superficiais e referências a publicações internacionais, usadas mais
como ornamento do que como base analítica.
Em Portugal assume contornos
particulares devido à reduzida dimensão do mercado mediático e à proximidade
entre comentadores, jornalistas e estruturas de poder. A lógica da televisão —
imediatista, orientada para audiências e dependente de rostos reconhecíveis —
favorece perfis que garantem fluidez discursiva e presença mediática, ainda que
à custa de profundidade.
O resultado é um empobrecimento do
debate público. Quando a opinião se sobrepõe sistematicamente ao conhecimento,
e quando a confiança é construída mais pela exposição do que pela competência,
perde-se uma oportunidade essencial: a de informar com rigor e contribuir para
uma cidadania mais esclarecida.
A renovação deve ser acompanhada
de exigência, responsabilidade e, sobretudo, de consciência dos próprios
limites. Opinar não é apenas falar — é sustentar, contextualizar e assumir o
peso das palavras num espaço público.
As televisões têm aqui um papel
decisivo. Ao escolherem quem comenta e como comenta, definem não só o tom do
debate, mas também o nível de exigência a que o público é exposto. Apostar na
diversidade de perspetivas é importante, mas essa diversidade deve incluir,
acima de tudo, qualidade.
Num tempo em que a informação circula rapidamente e a
desinformação ganha terreno, a credibilidade não é um luxo — é uma necessidade.
E essa começa, inevitavelmente, por quem tem voz.
QUANDO PORTUGAL “MANDAVA” NO ESTREITO DE ORMUZ
Hoje
o Estreito de Ormuz, está na ordem dia. Mas no Século XVI era Portugal que “geria” esse mesmo local.
A
presença portuguesa no Estreito de Ormuz, no início do século XVI, é um dos
episódios mais reveladores da ambição marítima e estratégica de Portugal na era
dos Descobrimentos. Mais do que uma simples expansão territorial, tratou-se de
um projecto claro de controlo das rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente
— e, sobretudo, de imposição de poder económico sobre quem delas dependia.
No
centro dessa estratégia esteve Afonso de Albuquerque, figura
incontornável da política imperial portuguesa. Visionário e implacável,
Albuquerque compreendeu que dominar pontos-chave como Ormuz significava
controlar o fluxo de mercadorias valiosas — especiarias, seda, pérolas — que
atravessavam o Golfo Pérsico. Não era apenas uma questão de presença militar,
mas de engenharia política e fiscal.
A
instalação portuguesa em Ormuz, consolidada a partir de 1515, instituiu um
sistema de cobrança que hoje poderíamos comparar a uma “taxa de portagem” marítima. Todos os navios que cruzavam o
estreito eram obrigados a pagar tributos à Coroa portuguesa. Este sistema,
conhecido como o “cartaz”, funcionava
como uma licença de navegação: sem ele, qualquer embarcação corria o risco de
ser capturada, saqueada ou afundada pela armada portuguesa.
Este
mecanismo revela bem a natureza do império português no Índico: menos
territorial e mais baseado no controlo de rotas e na extração de rendimentos.
Portugal não precisava dominar vastas extensões de terra; bastava-lhe controlar
os “gargalos” do comércio global.
Ormuz era um desses pontos nevrálgicos — uma verdadeira chave do comércio entre
a Índia, a Pérsia e o Médio Oriente.
Contudo,
esta política levanta questões que ainda hoje ecoam. Até que ponto este sistema
era uma forma legítima de regulação comercial ou uma imposição coerciva sobre
povos e comerciantes locais? A resposta depende do olhar histórico que se
adote. Para a Coroa portuguesa, tratava-se de garantir segurança marítima e
ordem nas rotas. Para muitos dos que pagavam essas taxas, era pouco mais do que
extorsão institucionalizada.
A
figura de Afonso de Albuquerque emerge, assim, como símbolo dessa dualidade:
estratega brilhante, responsável por consolidar o poder português no Índico,
mas também agente de uma política agressiva. A sua visão moldou um império que,
durante algumas décadas, conseguiu dominar pontos-chave do comércio mundial —
ainda que à custa de tensões permanentes com outras potências e populações
locais.
Em
última análise, a presença portuguesa no Estreito de Ormuz ilustra uma fase
precoce da globalização, marcada por competição, inovação e conflito. E
recorda-nos que o controlo das rotas comerciais — ontem como hoje — é uma das
formas mais eficazes de exercer poder no mundo.
Outsourcing: a institucionalização da
precariedade laboral
O outsourcing, frequentemente vendido como uma ferramenta moderna de
eficiência empresarial, é, na realidade, uma das formas mais sofisticadas de
precarização do trabalho na economia contemporânea. Longe de ser uma solução
neutra ou inevitável, trata-se de um mecanismo deliberado que permite às
empresas fugir às suas responsabilidades sociais e laborais, enquanto maximizam
lucros à custa de quem trabalha.
Na prática, o outsourcing não é utilizado para responder a necessidades
ocasionais ou especializadas — como tantas vezes se tenta justificar — mas sim
para ocupar postos de trabalho permanentes, essenciais ao funcionamento das
empresas. Esta distorção não é inocente: é uma estratégia consciente para
evitar contratos diretos, reduzir encargos e fragmentar a força laboral,
enfraquecendo a sua capacidade de reivindicação.
Os trabalhadores em outsourcing são, na essência, trabalhadores de “segunda classe”. Executam as mesmas
funções, cumprem os mesmos horários, respondem às mesmas exigências — mas
recebem menos, têm menos direitos, menos proteção e vivem sob constante
insegurança. Esta desigualdade não só é injusta como profundamente humilhante,
criando divisões artificiais dentro do mesmo local de trabalho.
Mais grave ainda é o papel das empresas intermediárias de outsourcing,
que prosperam ao transformar o trabalho humano numa mercadoria negociável.
Estas empresas não criam valor real — limitam-se a intermediar relações
laborais, absorvendo uma parte significativa da riqueza produzida pelos
trabalhadores. É um modelo parasitário que beneficia poucos e prejudica muitos.
Permitir que empresas utilizem outsourcing para encobrir necessidades
permanentes não é apenas eticamente questionável — é uma forma de exploração
legitimada. Trata-se de um modelo que normaliza a desigualdade, fragiliza
direitos e perpetua a insegurança laboral.
Se há algo que deve ser claro, é isto: o outsourcing, nestes moldes, não
é uma solução — é um problema. E continuar a aceitá-lo sem contestação é
compactuar com um sistema que coloca o lucro acima da dignidade humana.
A praga dos Generais-comentadores.
Generais a mais para um país em paz.
Nos últimos tempos, tornou-se quase impossível ligar a televisão sem
assistir ao desfile de generais — na sua maioria já na reforma — a comentarem
os conflitos internacionais, em particular a guerra entre a Rússia e a Ucrânia
ou as tensões com o Irão. A presença constante destas figuras levanta uma
questão incómoda, mas necessária: quantos generais precisa realmente um país como
Portugal?
Um General de Brigada, o escalão mais baixo da classe de
oficiais-generais, tem como função comandar uma brigada, normalmente composta
por três a cinco mil militares. Ora, considerando que as Forças Armadas
portuguesas contam com cerca de 24 mil efetivos, uma simples conta de
proporcionalidade sugere que um número muito reduzido de generais seria
suficiente para garantir a estrutura de comando. Ainda assim, o número de
oficiais-generais — no ativo e na reserva — parece largamente superior ao necessário.
Este aparente excesso torna-se ainda mais evidente quando se observa o
protagonismo mediático de muitos destes militares. A sua participação no debate
público é legítima e, em muitos casos, útil. No entanto, a frequência com que
surgem levanta dúvidas sobre se estamos perante uma elite sobredimensionada,
que encontra nos meios de comunicação uma forma de prolongar a sua relevância
após a carreira ativa.
Mas a questão não se esgota nos generais. Se descermos na hierarquia
militar para o universo dos oficiais, o problema adquire outra dimensão. Muitos
desempenham funções administrativas, afastadas da realidade operacional que
justificaria a sua formação e estatuto. Em vez de liderarem tropas no terreno,
acabam por ocupar cargos burocráticos, frequentemente indistinguíveis de
funções civis, mas com custos significativamente mais elevados para o erário
público.
Portugal não está em guerra, nem enfrenta ameaças militares diretas que
justifiquem uma estrutura pesada e hierarquicamente inflacionada. Num contexto
de paz e de recursos limitados, torna-se legítimo questionar a eficiência do
modelo atual. Será que estamos a investir na defesa nacional de forma
estratégica, ou apenas a sustentar uma máquina institucional desajustada da
realidade?
A discussão não deve ser simplista nem populista. As Forças Armadas
desempenham um papel essencial, não só na defesa, mas também em missões de
proteção civil, cooperação internacional e apoio em situações de emergência.
Contudo, isso não invalida a necessidade de uma reflexão séria sobre a sua
organização interna.
Num país onde frequentemente se exigem sacrifícios aos contribuintes, a
transparência e a racionalidade na gestão dos recursos públicos são
imperativas. E isso inclui, inevitavelmente, perguntar: quantos generais são
necessários?
A verdadeira questão é incómoda, mas inevitável: estamos a investir na
defesa nacional — ou apenas a sustentar uma estrutura que se perpetua a si
própria?